sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Reciclagem

No fim do dia costumava resgatar restos das vidas que se pensavam já bastadas, vividas até o fim. Recolhia latas de alumínio e seus lacres, papeis em branco, potes de vidro, roupas usadas, pedaços de coisas que um dia foram. Depois vendia o que resgatou e tudo novamente voltava a existir. Talvez em uma forma diferente, talvez com uma finalidade diversa, mas com a mesma substância, a mesma essência. Dentre embalagens vazias, contas de luz antigas, propagandas de banco, de políticos, de academias, de locadoras, às vezes encontrava uma boneca quebrada, sem braço ou sem perna. Chegava a pensar em levar pra casa, na esperança de que talvez sua mulher pudesse reformá-la. Dentre restos de comida, papeis sujos, extratos de banco, espelhos quebrados, às vezes encontrava uma bijuteria qualquer, um anel ou um colar. Cogitava levar consigo e dizer que encontrou na rua, na esperança de que sua mulher pudesse querer, ou rejeitar por ser quase lixo. Mas nesta noite, encontrou apenas uma carta de amor, rasgada em pedaços, dentro de um livro. Quando chegou em casa, colou os dez pedaços da carta, montando o pequeno quebra-cabeça afetivo, que se pensava destruído. Sentou-se na cama e leu, em voz alta e titubeante, as palavras rabiscadas em caneta azul. Nesta noite velou o sono absorto de sua mulher, já apropriado daquelas palavras de amor, lendo e relendo a carta, durante todas as horas até o amanhecer.


segunda-feira, 28 de outubro de 2013


Resenha do meu "Irene na multidão", escrita por Fernando Andrade, para o Trema Literatura:

http://www.tremaliteratura.com/2013/09/resenha-do-livro-irene-na-multidao.html



sábado, 19 de outubro de 2013

Encontro


Nos perdemos uma da outra na feira, num domingo que transpirava modorra de outono. Este dia cheirava a sementes de erva-doce misturadas a suor do dia de ontem. Eu tinha dez anos no meu passado, barracas de laranjas e limões ao meu lado, vozes dissonantes ao meu redor e absolutamente nenhuma ideia de onde minha mãe estaria.

Nos perdemos uma da outra, num dia de outono, fedorento e doce, sem hora precisa, junto com qualquer noção de tempo e de distância. Ela tinha vinte anos de existência à minha frente, barracas de batatas e berinjelas ao seu lado, gritos desnorteantes ao seu redor, e absolutamente nenhuma ideia de como, de repente, apareci no mundo.

Nos perdemos uma da outra no meio de centenas de pessoas preocupadas apenas com suas próprias vidas, seus próprios afazeres, seus horários, suas comidas, seus filhos, seus netos, suas dores abstraídas e seus amores insinceros. Era um dia de outono, como outro qualquer, e, exceto pelo inédito de minha breve liberdade misturada à agonia de me achar abandonada, eu estava firmemente concentrada no que se passava em mim.

Nos perdemos uma da outra num dia de outono inesquecível, no meio do labor de fim de semana, de comidas frescas, de escolhas rotineiras, de histórias paralelas, de conversas banais, de ofertas baratas. Nos perdemos uma da outra entre uma pechincha e um “muito obrigado”.

Nos perdemos uma da outra num dia completamente esquecível, exceto pela morte, nascimento ou casamento de alguém, ou, ainda, qualquer outra forma de alteração de existência, prevista, imaginada ou inventada. Mas lembro que acordei nesse domingo de outono, entediante e inusitado, com a sensação obscura de um iminente esquecimento.

E no exato instante em que acordei, retive em minha memória o sonho que eu tivera na noite anterior. Sonhei que bebia um copo de leite interminável e de paladar insuportável, nitidamente obrigada por alguém. Como num filme o plano ia abrindo e eu me via sozinha, sentindo-me obrigada a beber, sem chegar ao fim, e sem, no entanto, ninguém me constrangendo a fazê-lo.

Nos perdemos uma da outra enquanto eu, intrigada, lembrava desse sonho e pensava em contar pra minha mãe.

De repente, assim como cheguei ao mundo, senti um puxão no braço direito. Ela, pálida e silenciosa, com os olhos espantados e tensos, murmurou, com a voz suplicante:

_ Nunca mais se perca de mim.

Nos perdemos uma da outra para, num dia de outono que transpirava súplicas e dúvidas, nos encontrarmos pela primeira vez.



(inspirado em imagem de Paulo Resende, para o blog Caneta, Lente e Pincel)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Umbigo

Você não é o centro do universo, eu lhe disse dezenas de vezes e, mais uma vez, repito. O mundo não gira em torno da sua existência. Olhe à sua volta, exercite um pouco da empatia que lhe é elemento tão desconhecido. Se coloque no lugar do outro por um instante e perceba o que é sentir a areia torrando os pés, o que é a saudade ao ser traduzida, o que é a sede na falta de água, o que traz essa ausência de definição do que diz respeito a nós dois. Desça do seu pedestal e olhe à sua volta. Ninguém se importa, ninguém te enxerga, todos se voltam para direções diversas, enquanto você ainda se acha no centro de tudo. Só eu me concentro em você, entende? Sei que perco o que lhe é mais essencial, mas insisto em apontar em sua direção. Você me foge, como uma sombra desobediente quando as luzes se apagam. Nessas horas, perco meu centro, perco meu mundo. Toda ausência cumpre seu papel de fazer confundir. Desta vez não poderia ser diferente. 

(inspirado em imagem de Marcos Sêmola, para o blog Caneta, Lente e Pincel)

Trilha sonora


Se minha vida tem trilha sonora, meu livro também tem que ter.
Trilha sonora de Irene na multidão, no Grooveshark:

http://grooveshark.com/#!/playlist/Irene+Na+Multid+o/89990972

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sonho #1

Esta noite sonhei com o tom da sua voz. Estava mais grave que o habitual, anasalada e sóbria, querendo me dizer algo que eu desconhecia. Os passos no corredor invadiram meu sono, ritmados e perplexos. Uma sirene de bombeiros fazia com que tudo acontecesse ao mesmo tempo. Mas sua voz sobressaía, grave, dentre os ruídos oníricos do meu inconsciente. Você falava em um idioma desconhecido que parecia russo, mas poderia ser ucraniano ou polonês. Nessa hora, me arrependi de não ter aprendido tudo que podia com você. Me arrependi de ter permitido sua partida violenta, abrupta e solitária. Acordei sobressaltada, com um medo, que me vinha sóbrio e ruidoso. O medo imenso de perder a lembrança de sua voz.