quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sobre o óbvio - parte 02




Há semanas ele esperava por um sinal. Um movimento rápido, um gesto que significasse qualquer sentimento. Uma momentânea falta de ar ou um tremor discreto na voz, um olhar repentino, um sorriso oblíquo que sempre parece dizer muito mais do que realmente pretende. Ela poderia demonstrar desprezo, compaixão, amizade, carinho. Qualquer qualidade distintiva que lhe fornecesse uma, apenas uma, certeza. Seguir em frente ou desistir de tudo.

Ele esperava, ao menos, que ela atendesse uma de suas chamadas. Nada. Absolutamente nada. O que um amigo lhe diria numa hora dessas? Cara, ela não está a fim. Acontece. E foi o que disseram porque é o que significa, simples assim para qualquer um. O que ele demorou a perceber é que a ausência de sinais era, em si mesma, um sinal: se não era desprezo o que ela sentia, pelo menos ela o ignorava solene e ostentosamente. Ele precisava se agarrar a esta ausência para esquecê-la de vez.

Mas num sábado deste mês os dois se encontraram numa festa num apartamento na Gávea. Começou a chover forte e ele estava próximo à janela, bebendo um Dry Martini. Ela foi até ele, falou de forma extremamente doce sobre um livro que ele havia lhe emprestado há anos e que ela, distraidamente, esquecera de devolver. Disse, envergonhada, que sabia que ele jamais lhe emprestaria qualquer outro livro, CD ou DVD, ou o que quer que fosse. Ele achou que o fato de ela ter enrubescido enquanto falava sobre tal esquecimento era um sinal do seu interesse. Ela não se envergonharia tanto se realmente não se importasse com o que ele pensava. Por outro lado, cogitou, o desprezo pelo objeto perdido em sua estante representava o quanto ela não dava a mínima sequer para o livro dele, sequer para ele próprio.

Mas depois entabularam uma conversa sobre Virginia Woolf e ele suspirou aliviado porque havia visto recentemente aquele filme com a Nicole Kidman no telecine Cult e poderia falar alguma coisa a respeito. Ela expressou uma imensa indignação e reclamou horrores do tal filme. E ela adorava falar a palavra "horrores" para exprimir intensidade, o que o fazia sofrer horrores, porque ele se encantava cada vez mais com aquela veemência toda. Por vezes, ele se perdia nas expressões melodramáticas dela e fixava o olhar em algum ponto do seu rosto pequeno e redondo.

Lá pelas tantas, ela parou de falar por alguns segundos e disse que precisava ir embora. E foi.

Há finais óbvios para essa situação. Há finais inesperados, de uma irrealidade quase impossível. Há finais inexistentes porque as coisas mudam e não acabam, nunca.

E, dentre muitos, há este final possível:

Ela volta para casa, sem parar de pensar nele. Por um momento, ela entendeu que era tão óbvio que aquela conversa sobre Virginia Woolf e Nicole Kidman o entediava de verdade, que ela se sentiu terrivelmente envergonhada. Interpretou os breves silêncios dele não como interrupções causadas por certo enlevo e êxtase, mas sim, como pausas aborrecidas na conversa. Ele não a agüentava mais, mas tinha compaixão por aquela intensidade que ela não conseguia mais esconder.

Ele volta pra casa, sem parar de pensar nela. Quando ela foi embora, ele percebeu inteiramente a ambiguidade da situação, ou seja, em outras palavras, caiu a ficha. No balanço dos sinais, ele entendeu que ela não estava a fim. Simples assim. Talvez devesse ler mais Virginia Woolf e ver menos filmes no telecine Cult. Talvez devesse aprender a conversar com mulheres.

Mesmo assim, ele viu CSI, enquanto tomava sorvete de creme.

Nessa hora, ela via Law and Order, enquanto comia sucrilhos com leite e nescau.

Um tentava esquecer o outro. De forma óbvia, estúpida, infrutífera. Exatamente como somos, enquanto jovens. Como, sem dúvida, a vida é. 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Referências (breve reflexão dedicada a Sylvia Plath)




Todo mundo precisa de um modelo. Um norte indispensável que oriente, que faça com que se siga em frente, que nos avise dos perigos, que torne nossas escolhas certas e, de fato, indubitáveis. Que transforme crenças idealizadas nas únicas soluções reais para o cotidiano. Uma referência que tanto sirva de bússola quanto de mapa, trajetória e definição de um caminho a ser seguido.

O problema é quando as referências escolhidas começam a confundir mais que indicar um rumo qualquer.
É nesse ponto que me perco. É aqui que as perguntas e os porquês surgem desordenados na minha cabeça. Por que preciso de direção? E como cheguei a estas escolhas? 

"Droga, qual é o problema comigo?", ela pergunta, por fim.

E eu também.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sobre o óbvio - parte 01




Hoje eu estava no metrô, ouvindo Jenny Lewis - porque há sempre uma trilha sonora, em especial em instantes corriqueiros como este - e não pude desviar meus olhos da mensagem que a passageira ao meu lado direito escrevia no seu celular.

Dizia mais ou menos: "vc num saiu da net de madrugada! q tava fazendo acordado?" (sic)

Vigilância sintomática da hipermodernidade, pensei imediatamente, imaginando coisas como msn, twitter e facebook, simplesmente porque as pessoas são óbvias, em especial aquelas que encontramos no metrô. (E, a propósito, esta afirmação de modo algum me exclui. Sou tão óbvia quanto um mediano filme de gênero. O que, definitivamente, me frustra em elevadíssimo grau.)

Claro que não esperei a resposta. Mas quando eu estava perto da porta do vagão, vi  que ela sorriu, enquanto olhava o celular. Saí na minha estação, corri para o trabalho e pensei nas coisas óbvias mais próximas de mim, tais como um café preto para manter o bom humor.

Agora, lembrando da moça sorridente do metrô, fiquei pensando em algumas possíveis respostas àquela pergunta:

1 -  por que tá curiosa?
2 -  horas jogando xadrez com um irlandês
3 - escrevendo um artigo sobre lixo tóxico nos países da África Meridional
4 - conversando com um amigo que está trabalhando na Letônia
5 - respondendo a quizzes absurdos no facebook e jogando Vampire Wars
6 - fazendo doações para os médicos sem fronteiras e para a Wikipedia
7 - procurando um apartamento para morar com você!
8 - twittando sobre todas as dezenas coisas que tenho feito
9 - baixando os novos episódios de house
10 - escrevendo um poema pra você. já olhou sua caixa postal?

Posso escrever inúmeras respostas, sei que não foi nenhuma dessas.

Pode ter sido algo insólito. Pode ter sido ridiculamente lugar-comum.

O que importa é que a resposta a fez sorrir. Qualquer obviedade, se houve, foi acobertada por aquele breve instante de felicidade. O óbvio, às vezes, é o que basta para ser feliz (pelo menos durante um tempo).

Dentre estas duas opções: uma inusitada ambiguidade que atormenta e uma breve e óbvia felicidade. O que eu escolheria?

Vou dormir pensando.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Just singing a song (momento alta fidelidade - 01)





Na esteira do post anterior e encarnando Rob Fleming, personagem de Nick Hornby em "Alta Fidelidade", reproduzo abaixo uma de minhas listas favoritas. Dentre as músicas mais ouvidas, por mim, em 2009 estão:

1 - I feel a change comin' on - Bob Dylan (Together through life - 2009)
2 - Light a candle - Neil Young (Fork in the road - 2009)
3 - White Winter Hymnal - Fleet Foxes (Fleet Foxes - 2008)
4 - You and I - Wilco (Wilco, The album - 2009)
5 - I believe in you - Cat Power / versão de Bob Dylan (Jukebox - 2008)
6 - Be gentle with me - The boy least likely to (The best party ever - 2008)
7 - Baby I'm a fool - Melody Gardot (My one and only thrill - 2009)
8 - Oxford comma - Vampire Weekend (Vampire Weekend - 2008)
9 - I don't know what to do - Scarlett Johansson and Pete Yorn (Break Up - 2009)
10 - Sweet Darling - She and Him (Volume One - 2008)


(Admito que foi difícil reduzir minhas músicas mais ouvidas em 2009 a apenas dez. Este é apenas o esboço de uma tentativa.)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ronda noturna



Penso que ruas desertas e noites sem estrelas são grandes protagonistas dessa história.  Nelas, algumas sensações repercutem indefinidamente e teimam nessa repetição melodramática, tais como: insônia, inquietação, angústia, ansiedade. Não há escolha: a falta de sono é enfática, incisiva. Quase machuca o corpo pensar que é possível deitar e dormir. Simples e fácil como parece. Sobram outras opções: pensar, escrever,  ler e-mails, escolher um livro, um filme ou um seriado de TV, colocar uma trilha sonora circunstancial, estar convicto de que todos estão realmente dormindo e só você acordado (e tentar não sofrer com isso). Escolho Scarlett Johansson cantando Tom Waits e penso novamente nos reais protagonistas dessa história. Faço novas descobertas enquanto escuto sua voz rouca cantando I don't need anybody because I learned to be alone. Anywhere I lay my head I gonna call my home.

Descubro, por exemplo, que também aprendi a estar sozinha. Descubro que às vezes não quero crescer. Que adoro monstros bizarros de filmes de sci-fi. Descubro uma nova história com novos personagens e me apaixono por cada um deles. Descubro uma estrela tímida, bem disfarçada de escuridão. Descubro uma palavra nova: Atazagorafobia. Descubro um livro que quero comprar e um disco que quero ouvir. Descubro o prazer das listas, como esta. Faço uma lista das listas que preciso fazer: pessoas que conheci este ano, pessoas com quem não falo há mais de três meses, pessoas para quem devo telefonar. Os melhores filmes que vi este ano. As melhores músicas que ouvi. Lista das coisas que preciso fazer esta semana, dos livros que preciso ler até janeiro do ano que vem.  Lista das pessoas imprescindíveis. Planejo um sonho, com as inconsistências das noites insones. Planejo mudanças. Penso nas coisas que preciso dizer mas não tenho coragem. Nessa hora, descubro também que preciso aprender a viver.

E, afinal, por hoje não é preciso mais dormir.


(Ouvindo "Anywhere I lay my head", na voz sóbria da doce Scarlett.)

(foto: Mauricio Gouveia)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

As coisas que não sei (homenagem a clarice lispector - 01)




Lendo minha mais recente e preciosa aquisição, "Clarice", de Benjamin Moser, com a belíssima edição da Cosac Naify, me deparo com o trecho que transcrevo a seguir.

*Entre as últimas anotações de Clarice encontra-se esta: "Escrever pode tornar a pessoa louca. Ela tem que levar uma vida pacata, bem acomodada, bem burguesa. Senão a loucura vem. É perigoso. É preciso calar a boca e nada contar sobre o que se sabe e o que se sabe é tanto, e é tão glorioso. Eu sei, por exemplo, Deus."*


Essa passagem me enterneceu e fiquei pensando nas razões para isso. Eu, de minha parte, não faço a menor idéia sobre o que pensar ou o que saber de Deus. Não sei de mim, sei tão miseravelmente pouco dos outros e, provavelmente, estou a uma distância bem segura da loucura. Não sei do passado, mal sei de hoje, desconheço o futuro porque os caminhos que se descortinam são ambíguos e tão multifacetados como nossos sonhos quando estamos prestes a acordar. Muitas vezes me surpreendo duvidando das minhas próprias vontades. Vejo frequentemente desprezadas por mim mesma tanto as coisas que desejo muito quanto aquelas que definitivamente não quero. E casual como uma criança, fico feliz com algo que jamais imaginei querer. Sei um pouco sobre amizade. Mas sei quase nada sobre a angústia. Como ser amiga sem entender perfeitamente a angústia que ela sente? 
Sei absolutamente nada sobre as escolhas que nos desafiam todos os dias. Assim como esta: por que escolhi ser eu mesma?

O que sei é que é preciso escrever muito, de forma árdua, cansativa, custosa, perigosa. É preciso quase enlouquecer. É preciso aprender.

E, acima de tudo, é preciso tentar ser um pouco Clarice pra conseguir viver.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O segredo dos olhos de cada um de nós




(ATENÇÃO: este post contém SPOILER. Só leia quem tiver visto o filme)

Há momentos em que é inevitável refletir sobre a falta, sobre o erro e sobre a reparação. Errar é muito provável, independentemente de todo o cuidado de que podemos nos cercar. Mesmo querendo agir da melhor e mais correta forma, tropeços são mais comuns que pensamos e as pequenas omissões ou faltas, muitas vezes, originam conseqüências as mais diversas. Opções: por que sigo um caminho e não outro? Ou por que não digo a frase certa no momento certo? (por que me falta essa presença de espírito?) Ou por que elejo para mim a vida de outra pessoa? Toda dedicação para se resolver essas questões faz parte de uma tentativa de se preencher a carência de algo imprescindível, como o amor ou a vontade de viver. Ou corresponde apenas à busca pela paixão, o que move todo o resto.

“O segredo dos seus olhos” é também uma história sobre tentativas de reparação de erros pretéritos. Algo ficou mal resolvido e é necessário, para seguir adiante, retornar ao passado e tentar solucioná-lo.

Há um crime, um criminoso e uma vítima. Há uma justiça viciada. Irene e Esposito têm nobres ideais, mas logo percebem que não há força suficiente neles para superar a impunidade “daquela justiça”, presente não só em tempos de ditadura como a contextualizada ali. Por consequência, assim como em histórias policiais, existe alguém que procura justiça. Após um muito breve conflito, não resta a Irene e a Esposito, os personagens envolvidos com o sistema judiciário da época, nada além da resignação. E o conformismo é o primeiro erro a ser reparado aqui.

Mas não se trata de um filme policial. É uma história de dois tipos de amor. O amor calmo e dedicado – de Esposito – e o amor desesperado e angustiante – de Morales. Como todo amor, existe também a paixão e existe o medo. A palavra “temo” que Esposito escreveu num bloco de papel transforma-se em “te amo” em uma passagem muito representativa do estar apaixonado. O apaixonado teme, sobretudo a rejeição, o afastamento, a perda do que ele ainda não possui (e certamente não vai possuir nunca). Então, mesmo como uma forma de subterfúgio, ele se dedica a outras coisas. Toda dedicação de Esposito para o caso Morales (e consequentemente para Irene) é também expressão de sua busca pelo amor. Ele deixa claro o motor que o faz retornar ao passado quando diz que “nunca viu um amor como o de Ricardo Morales e Liliana Coloto”. Pensa que precisa solucionar o caso, quando, na verdade, o que precisa resolver é a ausência quase-concreta do amor. O amor lhe falta assim como falta a letra “a” na máquina de escrever, e, não por acaso, falta a letra “a” para que a palavra “temo” se converta na expressão “te amo”.

Existe o que não se diz nunca e existe o que se diz no ímpeto da comoção. Existe ainda o quase-dito. A confissão de Irene aparece estampada na decepção que sente quando percebe que Esposito vai até sua sala para falar sobre o caso Morales, enquanto ela pensou, por um instante, que estava prestes a ouvir alguma revelação íntima. Mas a confissão dele vem muito tempo depois. Mais um erro do quase-dito. Um erro proveniente das sutilezas que revestem o comportamento dos apaixonados tentando esconder o medo da perda.

Existe o que não se faz, e existe o que se faz porque algo não foi devidamente feito. Como a vingança em substituição a uma justiça que não funciona. Surgem daí as outras vítimas. A vítima não é apenas a garota estuprada e assassinada. A vítima é também o marido e a vítima é também o criminoso. E a vingança procurada por Morales é tortura para ambos, sem dúvida. É tarde demais pra definir quem é quem. Os dois são vítima e carrasco. A injustiça faz com que o ser humano se desvirtue, fazendo emergir instintos, mesmo brutais, antes ignorados. Mas a razão transforma a vingança num fardo para o vingador. E podemos constatar, através dos olhos baixos e envergonhados de Morales, que ele está totalmente consciente disso. Ele sabe que não há nem nunca houve redenção. Ele procurava justiça, achava que sabia como agir, mas erra e descobre que o inferno é ele próprio. E daí seu sofrimento não tem mais fim: ele sofre por perder Liliana, sofre por perdê-la de forma trágica, sofre por procurar vingança, sofre por conseguir vingança, sofre por conviver com o inimigo, e por fim, sofre por saber, no seu íntimo, que nada disso vai adiantar. Nada vai trazê-la de volta. Escondida, existe essa tragédia interminável, guardada nos olhos de Morales. Ninguém consegue viver depois da desgraça. Todo o resto, inclusive o amor, é ilusório.

Esposito engana-se ao pensar que houve de alguma maneira uma justiça. Engana-se ao pensar que pode corrigir o passado. Engana-se ao pensar que pode escrever um livro. Mas, por causa do engano e da ilusão, se salva. Segredos são desvendados, mas, certamente, existirão outros, mais bem guardados. Porque além dos segredos dos olhos do criminoso, da vítima, de Morales, de Irene, de Esposito, de seu amigo fiel, Sandoval, existem os segredos dos olhos de cada um de nós, espectadores.

E estes sim, são inescrutáveis.

Tuesday morning




Quando estiver amanhecendo e eu acordar, antes mesmo de a consciência perceber que horas são, preciso me lembrar do seguinte: as flores que nascem nos telhados não estão em seu ambiente natural, mas estão mais próximas do céu. Quando estiver amanhecendo e eu acordar, basta me lembrar que não importa qual dia é hoje. O que importa é que é o princípio de alguma coisa.

(ouvindo Tuesday morning - The Pogues)

domingo, 22 de novembro de 2009

Medos



Quando criança eu tinha medo de quase tudo. Meus medos iam e vinham, dependendo da época do ano, dos amigos que estavam por perto, da quantidade de amor que eu sentia ser devolvida para mim.  Medo e amor eram variáveis dependentes e diretamente proporcionais, e, assim, quanto mais amor eu tinha, mais medo eu sentia. Medo de perder tudo. Ou de ser esquecida de repente.
Hoje muita coisa mudou e o medo foi dando lugar a uma certa coragem que nunca imaginei ter. Não tenho medo de tropeçar, nem de errar ou de cair. Não tenho medo da natureza, dos ventos violentos, do sol intenso, do desmatamento da amazônia ou do buraco na camada de ozônio. Tampouco tenho medo do homem, de suas invenções, de suas armas ou de suas guerras.
Um medo porém ainda permanece e faz com que eu me mova: tenho pavor da espera e de pensar "o que aconteceria se".

(foto: Maurício Gouveia)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Simulacro de estrelas (homenagem a ana c. - 01)



Três horas e vinte e dois minutos depois de inúmeras deliberações desordenadas do pensamento. É uma noite sem carros, pedestres, nem vizinhos. É uma noite com perguntas tácitas e cismas absurdas. É uma noite ambígua e duvidosa porque absolutamente nada acontece por ausência de ímpeto. E nem as estrelas são ousadas o bastante para iluminar este estranhamento todo. É melhor deitar e dormir enquanto luzes artificiais tentam testemunhar cantos desabitados do país. E quem sabe encontram um breve acontecimento que quebre essa monotonia que a falta de audácia nos traz. Leio um poema da Ana Cristina C. e penso que eu também "preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios".
Como o arrependimento, a solidão é indefinível. Um espectro turvo. Um reflexo de uma vaga memória de algo que não temos certeza se aconteceu ou não. Qualquer coisa que existe e que deixa de existir ao mesmo tempo.
Recomeçar: é tentar entender como é andar em uma rua escura e vazia. Sem medo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

The very thing




Às vezes o imprescindível está bem na nossa frente, tão próximo e imediato que se torna confuso, quase imperceptível. Esquivo como um inseto que invade nossa casa de madrugada e não se permite mais seguir adiante. Permanece ali, nos importunando, como que acreditando em  sua indispensabilidade, enquanto nós, ignorantes dessa consciência desconhecida, queremos expulsá-lo a todo custo. Às vezes o imprescindível é apenas um dia de sol, depois de muitos de tempestades. Ou um mergulho na praia, um mate gelado, um passeio de montanha russa, um jogo de frescobol ou um sacolé de açaí. Outras vezes, o calor é tanto que tudo se quer é um temporal de verão. E a partir de então, só a chuva passa a ser necessária. Há ocasiões em que o silêncio é indispensável e em outros instantes precisamos de música alta, de modo que nem os pensamentos sejam distinguidos. Há momentos, e são muitos, em que precisamos de nosso melhor amigo. De outra forma, algumas vezes um inimigo passa a ser necessário, como um aprendizado de guerra, para que nossas convicções sejam fortalecidas. Em algumas oportunidades, é necessário olhar de frente. Em outras, de longe, de perto ou, talvez, de cabeça pra baixo. É preciso considerar a realidade de um ângulo incomum para tentar entender de forma exata tudo aquilo que é genuinamente necessário. Mesmo que seja por um breve instante apenas.

(ouvindo "The Very Thing" - Stars)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

High Noon


Aconteceu naquele exato instante. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos.
Quando um cachorro passou latindo para uma lata de refrigerante.
Aconteceu quando ele terminou um trabalho e salvou o arquivo no computador. No instante em que decidiu pedir demissão.
Aconteceu enquanto um entregador de pizza lia a seguinte manchete de jornal: mulher dá à luz na sala de espera de hospital em SP.

Quando ela perguntou "qual é o seu nome?", durante uma banal troca de cumprimentos.
Também quando o motorista de um palio vermelho ultrapassou um táxi no aterro do flamengo.
Aconteceu ainda quando ele perguntou: "quanto tempo?" e o médico disse que era difícil dizer.
Aconteceu quando uma criança olhou para o céu procurando o passarinho que saiu voando de suas mãos.
No instante em que ela pediu desculpas, sem ter qualquer motivo para tanto.
Quando ele cantarolou uma música que dizia assim: someday you'll find what you're lookin' for.
Aconteceu no instante mais frio daquele ano. E por acaso
no exato momento do meio-dia.
Quando um homem recém separado atravessou a rua e reencontrou uma amiga de escola.
Aconteceu no vigésimo terceiro minuto depois das vinte e três horas.
Ela procurava um anel caído no chão e ele procurava emprego no jornal de domingo do dia 12 de setembro de 2009.

Não aconteceu quando se conheceram, mas aconteceu quando se despediram.

Às vezes parece trivial. Às vezes se reveste de uma delicadeza extraordinária.
Sempre existe aquele instante que pode mudar tudo. E invariavelmente muda alguma coisa.


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Cenas de guerra - 01


Porque a paz só existe em função da guerra, como de hábito, ando tentando entender essa dicotomia. Pensando na guerra, elegi para este feriado "O Gosto da Guerra", de José Hamilton Ribeiro. O livro é um precioso relato desse grande jornalista que passou 40 dias no Vietnã. No último dia, em 20 de março de 68, pisou numa mina, enquanto acompanhava soldados americanos numa batida na "Estrada sem Alegria", perdendo a perna esquerda.

Ele conta:

"A subvalorização do que me tinha acontecido e mesmo a impressão dos dias que me esperavam - seriam os 15 dias mais dolorosos e infelizes da minha vida - iam ser-me explicadas algum tempo depois por um médico, ainda no Vietnã. Quando o corpo humano perde abruptamente uma de suas partes - disse ele -, as glândulas supra-renais, "mal-informadas" do que aconteceu, registram o déficit orgânico, atribuem-no a alguma crise passageira e passam a trabalhar em regime de safra açucareira para compensar, com uma superprodução de seus hormônios, a engrenagem do corpo que está em deficiência. Essa produção excessiva de adrenalina, acrescida do efeito da morfina e de outros psicotrópicos usados para mascarar a dor, leva a um estado de falsa euforia, e dura até o momento em que as supra-renais, conformadas com a nova situação, desistem de compensar o déficit orgânico e voltam à sua produção normal. Aí, então, a parada é dura, pois mesmo a morfina não fará mais efeito como nos primeiros dias, além de atrapalhar o estômago, provocar vômitos e tontura. Entra a fase de depressão profunda, a fase em que a felicidade pode ser claramente definida: felicidade é a capacidade de não sentir dor e de poder tomar duas colheres de sopa!"

Segue link sobre o livro:
http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/567


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Chuva


Chove quase todos os dias e eu, desprovida de toda forma de precaução, deixei meu guarda-chuva em casa. Um mero esquecimento. Ou uma falta de cuidado proposital, resultante do intenso calor primaveril. Espero que a chuva insistente caia de novo, amortecendo suas gotas frescas no rosto de pessoas desprevenidas como eu. A primavera é a mais generosa das estações. Um descuido da natureza. E por isso ela é mais que a perfeição.

(foto: Maurício Gouveia)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cenas de casamento - 01



Enquanto ela olha para leste, ele avista o oeste.
Em pouco tempo voarão para o sul, pois o que os move é sobrevivência e instinto.
Mas existe, lá no fundo, outra vontade encoberta por essa necessidade tão trivial de querer estar mundo para sempre. Uma vontade que ao mesmo tempo possui qualidades do real e do imaginário. Uma vontade que se resume em querer dilacerar as regras e ver o que acontece. Tentar ser oposto e voar para o norte.
Enquanto eles sonham com a direção almejada, não partem.

Sonhar não é viver. É um preâmbulo do inatingível. É um persistente estado de dúvida.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Perspectiva


Às vezes eu tento ver o mundo como ele. Como ela. Como uma ficção. Como alguém que só vi em fotos. Como um conhecido cujos pensamentos se ocultam nos cumprimentos diários de bom dia ou boa noite.
Às vezes eu quero ver o mundo de outro ponto de vista para tentar resolvê-lo com duas ou três cambalhotas no ar. Simples assim. Daí caio no chão e descubro que as coisas não funcionam desse modo.
Estamos neste circo gigante e comunitário, onde por vezes somos palhaços, equilibristas, engolidores de facas, de fogo, trapezistas, domadores de animais selvagens. Às vezes tudo junto e ao mesmo tempo.
Viver é apenas tentar se equilibrar nesta corda bamba chamada existência.

(foto: Maurício Gouveia)

sábado, 24 de outubro de 2009

De súbito, uma espera



Ela espera. Por algo ou alguém. Nesse momento espera por ele, cujo nome gravou com faca no muro de cimento. Um dia esquece de tudo porque só o nome permanece ali insculpido. O motivo ela vai desprezar em pouco tempo. Ela espera enquanto passam os instantes. E eu me divirto com ela porque dali a pouco tudo será esquecimento. Então, ela senta.