quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Chuva


Chove quase todos os dias e eu, desprovida de toda forma de precaução, deixei meu guarda-chuva em casa. Um mero esquecimento. Ou uma falta de cuidado proposital, resultante do intenso calor primaveril. Espero que a chuva insistente caia de novo, amortecendo suas gotas frescas no rosto de pessoas desprevenidas como eu. A primavera é a mais generosa das estações. Um descuido da natureza. E por isso ela é mais que a perfeição.

(foto: Maurício Gouveia)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Cenas de casamento - 01



Enquanto ela olha para leste, ele avista o oeste.
Em pouco tempo voarão para o sul, pois o que os move é sobrevivência e instinto.
Mas existe, lá no fundo, outra vontade encoberta por essa necessidade tão trivial de querer estar mundo para sempre. Uma vontade que ao mesmo tempo possui qualidades do real e do imaginário. Uma vontade que se resume em querer dilacerar as regras e ver o que acontece. Tentar ser oposto e voar para o norte.
Enquanto eles sonham com a direção almejada, não partem.

Sonhar não é viver. É um preâmbulo do inatingível. É um persistente estado de dúvida.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Perspectiva


Às vezes eu tento ver o mundo como ele. Como ela. Como uma ficção. Como alguém que só vi em fotos. Como um conhecido cujos pensamentos se ocultam nos cumprimentos diários de bom dia ou boa noite.
Às vezes eu quero ver o mundo de outro ponto de vista para tentar resolvê-lo com duas ou três cambalhotas no ar. Simples assim. Daí caio no chão e descubro que as coisas não funcionam desse modo.
Estamos neste circo gigante e comunitário, onde por vezes somos palhaços, equilibristas, engolidores de facas, de fogo, trapezistas, domadores de animais selvagens. Às vezes tudo junto e ao mesmo tempo.
Viver é apenas tentar se equilibrar nesta corda bamba chamada existência.

(foto: Maurício Gouveia)

sábado, 24 de outubro de 2009

De súbito, uma espera



Ela espera. Por algo ou alguém. Nesse momento espera por ele, cujo nome gravou com faca no muro de cimento. Um dia esquece de tudo porque só o nome permanece ali insculpido. O motivo ela vai desprezar em pouco tempo. Ela espera enquanto passam os instantes. E eu me divirto com ela porque dali a pouco tudo será esquecimento. Então, ela senta.