segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Cenas de guerra - 01


Porque a paz só existe em função da guerra, como de hábito, ando tentando entender essa dicotomia. Pensando na guerra, elegi para este feriado "O Gosto da Guerra", de José Hamilton Ribeiro. O livro é um precioso relato desse grande jornalista que passou 40 dias no Vietnã. No último dia, em 20 de março de 68, pisou numa mina, enquanto acompanhava soldados americanos numa batida na "Estrada sem Alegria", perdendo a perna esquerda.

Ele conta:

"A subvalorização do que me tinha acontecido e mesmo a impressão dos dias que me esperavam - seriam os 15 dias mais dolorosos e infelizes da minha vida - iam ser-me explicadas algum tempo depois por um médico, ainda no Vietnã. Quando o corpo humano perde abruptamente uma de suas partes - disse ele -, as glândulas supra-renais, "mal-informadas" do que aconteceu, registram o déficit orgânico, atribuem-no a alguma crise passageira e passam a trabalhar em regime de safra açucareira para compensar, com uma superprodução de seus hormônios, a engrenagem do corpo que está em deficiência. Essa produção excessiva de adrenalina, acrescida do efeito da morfina e de outros psicotrópicos usados para mascarar a dor, leva a um estado de falsa euforia, e dura até o momento em que as supra-renais, conformadas com a nova situação, desistem de compensar o déficit orgânico e voltam à sua produção normal. Aí, então, a parada é dura, pois mesmo a morfina não fará mais efeito como nos primeiros dias, além de atrapalhar o estômago, provocar vômitos e tontura. Entra a fase de depressão profunda, a fase em que a felicidade pode ser claramente definida: felicidade é a capacidade de não sentir dor e de poder tomar duas colheres de sopa!"

Segue link sobre o livro:
http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/567


Um comentário:

  1. As letras podem ser instrumentos usados para criar um parágrafo com um relato tão triste e preciso sobre algo tão doloroso como a guerra. Pergunto: alguém capaz de reportar a própria devastação física, como Hamilton, não mereceria o nome de gênio? Existe tanta beleza nessa coragem de encarar plenamente um fato. Reportar é não usar adereços.

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