quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O segredo dos olhos de cada um de nós




(ATENÇÃO: este post contém SPOILER. Só leia quem tiver visto o filme)

Há momentos em que é inevitável refletir sobre a falta, sobre o erro e sobre a reparação. Errar é muito provável, independentemente de todo o cuidado de que podemos nos cercar. Mesmo querendo agir da melhor e mais correta forma, tropeços são mais comuns que pensamos e as pequenas omissões ou faltas, muitas vezes, originam conseqüências as mais diversas. Opções: por que sigo um caminho e não outro? Ou por que não digo a frase certa no momento certo? (por que me falta essa presença de espírito?) Ou por que elejo para mim a vida de outra pessoa? Toda dedicação para se resolver essas questões faz parte de uma tentativa de se preencher a carência de algo imprescindível, como o amor ou a vontade de viver. Ou corresponde apenas à busca pela paixão, o que move todo o resto.

“O segredo dos seus olhos” é também uma história sobre tentativas de reparação de erros pretéritos. Algo ficou mal resolvido e é necessário, para seguir adiante, retornar ao passado e tentar solucioná-lo.

Há um crime, um criminoso e uma vítima. Há uma justiça viciada. Irene e Esposito têm nobres ideais, mas logo percebem que não há força suficiente neles para superar a impunidade “daquela justiça”, presente não só em tempos de ditadura como a contextualizada ali. Por consequência, assim como em histórias policiais, existe alguém que procura justiça. Após um muito breve conflito, não resta a Irene e a Esposito, os personagens envolvidos com o sistema judiciário da época, nada além da resignação. E o conformismo é o primeiro erro a ser reparado aqui.

Mas não se trata de um filme policial. É uma história de dois tipos de amor. O amor calmo e dedicado – de Esposito – e o amor desesperado e angustiante – de Morales. Como todo amor, existe também a paixão e existe o medo. A palavra “temo” que Esposito escreveu num bloco de papel transforma-se em “te amo” em uma passagem muito representativa do estar apaixonado. O apaixonado teme, sobretudo a rejeição, o afastamento, a perda do que ele ainda não possui (e certamente não vai possuir nunca). Então, mesmo como uma forma de subterfúgio, ele se dedica a outras coisas. Toda dedicação de Esposito para o caso Morales (e consequentemente para Irene) é também expressão de sua busca pelo amor. Ele deixa claro o motor que o faz retornar ao passado quando diz que “nunca viu um amor como o de Ricardo Morales e Liliana Coloto”. Pensa que precisa solucionar o caso, quando, na verdade, o que precisa resolver é a ausência quase-concreta do amor. O amor lhe falta assim como falta a letra “a” na máquina de escrever, e, não por acaso, falta a letra “a” para que a palavra “temo” se converta na expressão “te amo”.

Existe o que não se diz nunca e existe o que se diz no ímpeto da comoção. Existe ainda o quase-dito. A confissão de Irene aparece estampada na decepção que sente quando percebe que Esposito vai até sua sala para falar sobre o caso Morales, enquanto ela pensou, por um instante, que estava prestes a ouvir alguma revelação íntima. Mas a confissão dele vem muito tempo depois. Mais um erro do quase-dito. Um erro proveniente das sutilezas que revestem o comportamento dos apaixonados tentando esconder o medo da perda.

Existe o que não se faz, e existe o que se faz porque algo não foi devidamente feito. Como a vingança em substituição a uma justiça que não funciona. Surgem daí as outras vítimas. A vítima não é apenas a garota estuprada e assassinada. A vítima é também o marido e a vítima é também o criminoso. E a vingança procurada por Morales é tortura para ambos, sem dúvida. É tarde demais pra definir quem é quem. Os dois são vítima e carrasco. A injustiça faz com que o ser humano se desvirtue, fazendo emergir instintos, mesmo brutais, antes ignorados. Mas a razão transforma a vingança num fardo para o vingador. E podemos constatar, através dos olhos baixos e envergonhados de Morales, que ele está totalmente consciente disso. Ele sabe que não há nem nunca houve redenção. Ele procurava justiça, achava que sabia como agir, mas erra e descobre que o inferno é ele próprio. E daí seu sofrimento não tem mais fim: ele sofre por perder Liliana, sofre por perdê-la de forma trágica, sofre por procurar vingança, sofre por conseguir vingança, sofre por conviver com o inimigo, e por fim, sofre por saber, no seu íntimo, que nada disso vai adiantar. Nada vai trazê-la de volta. Escondida, existe essa tragédia interminável, guardada nos olhos de Morales. Ninguém consegue viver depois da desgraça. Todo o resto, inclusive o amor, é ilusório.

Esposito engana-se ao pensar que houve de alguma maneira uma justiça. Engana-se ao pensar que pode corrigir o passado. Engana-se ao pensar que pode escrever um livro. Mas, por causa do engano e da ilusão, se salva. Segredos são desvendados, mas, certamente, existirão outros, mais bem guardados. Porque além dos segredos dos olhos do criminoso, da vítima, de Morales, de Irene, de Esposito, de seu amigo fiel, Sandoval, existem os segredos dos olhos de cada um de nós, espectadores.

E estes sim, são inescrutáveis.

5 comentários:

  1. o que não é segredo pra ninguém, é q os olhos dessa foto são da ju!

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  2. O Segredo de Seus Olhos foi um dos melhores filmes que vi no Festival. Amo Campanella, amo Darín, amo cinema argentino. E amei essa análise! Fui rememorando várias cenas e detalhes do filme como o temo-te amo, a letra A ausente na máquina, os olhos baixos do marido e sua presa anos depois. Ótimo!

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  3. Texto ótimo e comovente como o filme. Campanella é muito bom. Ele não erra. Acho que o filme é, sobretudo, sobre amor. E todas as outras coisas que vêm juntos com esse sentimento, tão bem descritas por você, Dani. Acho que para Esposito, muito mais do que admirar aquele amor de Morales, sua volta a esta história, na verdade, é uma saída para voltar a sua própria história, ao seu grande amor do passado. O filme é lindo!!! Vale a pena ver de novo. E, soneto: segredo dos meus olhos??? Segredo... segredo...

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  4. Bonita foto!! Bonitos olhos!! hehehe
    E quanto segredo!

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