quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sobre o óbvio - parte 02




Há semanas ele esperava por um sinal. Um movimento rápido, um gesto que significasse qualquer sentimento. Uma momentânea falta de ar ou um tremor discreto na voz, um olhar repentino, um sorriso oblíquo que sempre parece dizer muito mais do que realmente pretende. Ela poderia demonstrar desprezo, compaixão, amizade, carinho. Qualquer qualidade distintiva que lhe fornecesse uma, apenas uma, certeza. Seguir em frente ou desistir de tudo.

Ele esperava, ao menos, que ela atendesse uma de suas chamadas. Nada. Absolutamente nada. O que um amigo lhe diria numa hora dessas? Cara, ela não está a fim. Acontece. E foi o que disseram porque é o que significa, simples assim para qualquer um. O que ele demorou a perceber é que a ausência de sinais era, em si mesma, um sinal: se não era desprezo o que ela sentia, pelo menos ela o ignorava solene e ostentosamente. Ele precisava se agarrar a esta ausência para esquecê-la de vez.

Mas num sábado deste mês os dois se encontraram numa festa num apartamento na Gávea. Começou a chover forte e ele estava próximo à janela, bebendo um Dry Martini. Ela foi até ele, falou de forma extremamente doce sobre um livro que ele havia lhe emprestado há anos e que ela, distraidamente, esquecera de devolver. Disse, envergonhada, que sabia que ele jamais lhe emprestaria qualquer outro livro, CD ou DVD, ou o que quer que fosse. Ele achou que o fato de ela ter enrubescido enquanto falava sobre tal esquecimento era um sinal do seu interesse. Ela não se envergonharia tanto se realmente não se importasse com o que ele pensava. Por outro lado, cogitou, o desprezo pelo objeto perdido em sua estante representava o quanto ela não dava a mínima sequer para o livro dele, sequer para ele próprio.

Mas depois entabularam uma conversa sobre Virginia Woolf e ele suspirou aliviado porque havia visto recentemente aquele filme com a Nicole Kidman no telecine Cult e poderia falar alguma coisa a respeito. Ela expressou uma imensa indignação e reclamou horrores do tal filme. E ela adorava falar a palavra "horrores" para exprimir intensidade, o que o fazia sofrer horrores, porque ele se encantava cada vez mais com aquela veemência toda. Por vezes, ele se perdia nas expressões melodramáticas dela e fixava o olhar em algum ponto do seu rosto pequeno e redondo.

Lá pelas tantas, ela parou de falar por alguns segundos e disse que precisava ir embora. E foi.

Há finais óbvios para essa situação. Há finais inesperados, de uma irrealidade quase impossível. Há finais inexistentes porque as coisas mudam e não acabam, nunca.

E, dentre muitos, há este final possível:

Ela volta para casa, sem parar de pensar nele. Por um momento, ela entendeu que era tão óbvio que aquela conversa sobre Virginia Woolf e Nicole Kidman o entediava de verdade, que ela se sentiu terrivelmente envergonhada. Interpretou os breves silêncios dele não como interrupções causadas por certo enlevo e êxtase, mas sim, como pausas aborrecidas na conversa. Ele não a agüentava mais, mas tinha compaixão por aquela intensidade que ela não conseguia mais esconder.

Ele volta pra casa, sem parar de pensar nela. Quando ela foi embora, ele percebeu inteiramente a ambiguidade da situação, ou seja, em outras palavras, caiu a ficha. No balanço dos sinais, ele entendeu que ela não estava a fim. Simples assim. Talvez devesse ler mais Virginia Woolf e ver menos filmes no telecine Cult. Talvez devesse aprender a conversar com mulheres.

Mesmo assim, ele viu CSI, enquanto tomava sorvete de creme.

Nessa hora, ela via Law and Order, enquanto comia sucrilhos com leite e nescau.

Um tentava esquecer o outro. De forma óbvia, estúpida, infrutífera. Exatamente como somos, enquanto jovens. Como, sem dúvida, a vida é. 

4 comentários:

  1. Essa conto é lindo. Eu votei nesse conto em uma noite em que, quase que milagrosamente, consegui prestar atenção em 90% dos contos lidos. Fez-se até um silêncio especial enquanto a Carmen lia, parecia que estávamos todos envolvidos em uma bolha, guiados com fé por aquelas palavras tão bem construídas, e nada de fora, nenhum vetor, nenhuma variável estranha, podia perturbar a cena. As palavras fazem isso com a gente às vezes. É um poder que não é só da música. E isso aconteceu. Lindo conto!

    ResponderExcluir
  2. "É um poder que não é só da música."

    Que linda frase, Vivian.

    Que lindoconto, Dani.

    ResponderExcluir
  3. Vejo que você voltou aos tempos de Valentina. Você poderia escrever uma narrativa mais estensa sobre este tema. Tem potencial. Continue. Tudo de bom, DRR

    ResponderExcluir
  4. a profundida do obvio se faz existante com suas palavras! li os dois e comento apenas em um, devo adimitir q me vi nessa sua situação particular imaginaria da vida alehia, eu faço muito isso, ate mais do q devia, as vezes!

    sobre esse segundo capitulo um tanto quanto lindo, poetico e exremante real
    aiaiai
    ( perdi minha linha de raciocinio)
    beijos

    ResponderExcluir