quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Sobre o óbvio - parte 01




Hoje eu estava no metrô, ouvindo Jenny Lewis - porque há sempre uma trilha sonora, em especial em instantes corriqueiros como este - e não pude desviar meus olhos da mensagem que a passageira ao meu lado direito escrevia no seu celular.

Dizia mais ou menos: "vc num saiu da net de madrugada! q tava fazendo acordado?" (sic)

Vigilância sintomática da hipermodernidade, pensei imediatamente, imaginando coisas como msn, twitter e facebook, simplesmente porque as pessoas são óbvias, em especial aquelas que encontramos no metrô. (E, a propósito, esta afirmação de modo algum me exclui. Sou tão óbvia quanto um mediano filme de gênero. O que, definitivamente, me frustra em elevadíssimo grau.)

Claro que não esperei a resposta. Mas quando eu estava perto da porta do vagão, vi  que ela sorriu, enquanto olhava o celular. Saí na minha estação, corri para o trabalho e pensei nas coisas óbvias mais próximas de mim, tais como um café preto para manter o bom humor.

Agora, lembrando da moça sorridente do metrô, fiquei pensando em algumas possíveis respostas àquela pergunta:

1 -  por que tá curiosa?
2 -  horas jogando xadrez com um irlandês
3 - escrevendo um artigo sobre lixo tóxico nos países da África Meridional
4 - conversando com um amigo que está trabalhando na Letônia
5 - respondendo a quizzes absurdos no facebook e jogando Vampire Wars
6 - fazendo doações para os médicos sem fronteiras e para a Wikipedia
7 - procurando um apartamento para morar com você!
8 - twittando sobre todas as dezenas coisas que tenho feito
9 - baixando os novos episódios de house
10 - escrevendo um poema pra você. já olhou sua caixa postal?

Posso escrever inúmeras respostas, sei que não foi nenhuma dessas.

Pode ter sido algo insólito. Pode ter sido ridiculamente lugar-comum.

O que importa é que a resposta a fez sorrir. Qualquer obviedade, se houve, foi acobertada por aquele breve instante de felicidade. O óbvio, às vezes, é o que basta para ser feliz (pelo menos durante um tempo).

Dentre estas duas opções: uma inusitada ambiguidade que atormenta e uma breve e óbvia felicidade. O que eu escolheria?

Vou dormir pensando.

4 comentários:

  1. Há momentos em que o óbvio pode se tornar ambíguo e outros em que a felicidade é um fato inusitado. Não existe felicidade óbvia, assim como ambiguidade inusitada. O que nos resta são sentimentos e todos eles são válidos dentro das circunstâncias em que nos encontramos. A vida é o que ela parece, embora, às vezes, as letras sejam miúdas. Não existe nada mais estranho do que um novo dia. Eu escolho isso. Tudo de bom, DRR

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  2. Como fã declarado e derramado, me privo (geralmente) de escrever comentários (mas não falar dos olhos da Ju, é, por exemplo, impossível). No entanto devo declarar aqui: esse texto quase me infartou de felicidade. Em alguma nuvem, Rubem Braga sorri feliz. E, aqui na Terra, eu também.

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  3. Nossa, essa foto é linda! E acho q conheço essa vista! Esses ônibus, essa rua. Linda foto e muita sensibilidade no texto - reflete a sensibilidade do olhar diário para o óbvio e o oculto.

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  4. Escolheria uma óbvia felicidade decorrente de uma obviedade inusitada.
    Adorei o texto e também a foto.

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