domingo, 5 de dezembro de 2010

Straight Flush


(este texto foi escrito em julho de 2009 para o blog Caneta, Lente e Pincel, inspirado na imagem acima, de Marcelo Damm)


De repente eu estava ali. Era noite e eu escondia silenciosamente num pequeno baú infantil uma carta escrita com caneta vermelha e encontrada junto a alguns livros do meu avô. Apesar da minha pouca idade, eu sabia que era uma carta de amor e, supondo que a remetente era minha avó, guardei-a com cuidado, ignorando, naquele momento, que tudo o que eu procurava era uma referência para o resto da minha vida. Um segredo que me fixasse no mundo. Algo similar a plantar uma árvore ou ser enviada para uma missão humanitária na Etiópia. Por ter esquecido a senha que me permitia abrir o pequeno baú, mantive a carta encarcerada durante mais de vinte anos. E desta forma, imaginei todas as cartas de amor que seriam possíveis. Uma carta de despedida ou de reencontro. Uma carta de perdão ou de mágoa. Uma carta bem escrita. Uma carta soluçante. Uma carta cheia de pecados. Uma carta alegre ou sofrida. E por fim me lembro que a senha é a palavra “amor”. Amor. Que ridículo: amor. Mas quando me lembro disso, é tarde demais, eu penso, porque estou caindo e acredito que vou morrer em pouco tempo.

De repente eu estava ali. Eu sangrava e sentia uma dor aguda muito forte, mas depois acordei com um médico me olhando e eu o reconheci, não sabia dizer de onde, pois não era o meu médico. O médico da emergência parecia um professor que tive na escola, mas não podia ser, pensei, como de professor de geografia ele foi parar na emergência de um hospital vestindo branco e me olhando daquele jeito? E ele me dizia que eu precisava descansar, mas eu sentia que algo estava faltando em mim e lhe perguntei sobre o meu bebê. Não escutei o que o médico disse, mas depois que ele foi embora, passei a andar pelo hospital procurando o que havia sido tirado de mim enquanto eu estava inconsciente. E senti que meu bebê escorregou de mim, assim como eu agora, caindo, pensando que era tarde demais.

De repente eu estava ali. Mesa de pôquer, seis amigos, uísque, cerveja e batata frita. Um casal anunciou a separação. E eu não entendi o motivo e pensei que tantos são os motivos quanto as cabeças das pessoas. Ganhei o jogo com um incrível straight flush de copas nas mãos. Sorte no jogo, azar no amor. Mas não era eu quem estava se separando e isso me fez desconfiar de ditados populares. Depois da minha breve vitória, a noite passou a ser regida por explicações premeditadas. Todos foram embora e eu liguei pra locadora de vídeo 24 horas porque não conseguiria dormir sem tentar fazer com que o amor se tornasse um pouco mais inteligível para mim. Mas não lembrei que filme queria ver. Quando enfim me recordo, estou caindo e me parece tarde demais.

De repente eu estava ali. De repente abandonei alguém e fui abandonada. De repente critiquei sem fundamento. Desisti de algo ou de alguém, sem motivo. De repente tive uma idéia e esqueci logo depois. De repente joguei fora um diário e guardei ingressos de cinema que se desbotaram com o tempo. Desliguei o telefone na cara de alguém. De repente dormi demais. Joguei demais. Apostei de menos. De repente ganhei demais e perdi de menos. Agora me lembro que queria ter alugado asas do desejo pra ver com ele. Mas de que adianta me lembrar de tudo isso agora que estou caindo, agora que estou prestes a morrer?

De repente mergulhei. E me sentindo sufocar, acordo, num susto. Na TV, a trapezista de circo amada pelo anjo ensaia suspensa numa corda enquanto ele pensa: “foi verdade à noite e é verdade agora, neste momento”. Ao meu lado, ele ainda dorme. Levanto e procuro meu baú de infância. Embarquemos, o anjo diz na televisão, quando encontro a carta escrita com intensas letras vermelhas, num papel já amarelado pelo passar do tempo. Embarquemos, penso.

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