sábado, 24 de dezembro de 2011

Um Natal em Bloomsbury


Era um inverno instável. Era um fim de ano frio, mas instável. Meu primeiro Natal fora do Brasil, longe da minha família, dos meus amigos, das minhas raízes sempre tão seguras e particularmente minhas. Eu estava ainda perdida em Londres, há alguns meses, terminando meu mestrado em literatura inglesa, envolta nos livros da Virginia Woolf e sobre Virginia Woolf, aprofundando uma pesquisa que me parecia interminável. Possivelmente porque eu, na verdade, desejava que aquilo tudo durasse ainda muito tempo. Lia e relia biografias, diários, cartas, romances, ensaios e estudos os mais diversos. Quando tinha tempo, eu caminhava pelas ruas de Londres, e pelas mesmas ruas onde ela dizia que a beleza não era percebida e que seria melhor não caminhar de braço dado nem tampouco ser muito alto. Eu não tinha ninguém para dar o braço e me satisfazia em andar sozinha, observando os ingleses altos, magros, e também os baixos, de rostos finos e narizes longos, ou rostos triangulares envoltos em chapéus e cachecois. Figuras misteriosas! Todos, sem exceção, para mim ainda mais estrangeiros nessa época de Natal!
Na tarde do dia 24 de dezembro, eu estava lendo uma revista científica num banco na Tavistock Square, enquanto esperava uma amiga, com quem eu passaria a noite de natal. Nesse momento, uma mulher, de idade indefinida, mas entre seus 35 e 45 se sentou ao meu lado, interrompendo minha leitura.
Kepler 22b é sem dúvida um nome muito pouco criativo para um planeta tão notável.”
Ela usava uma saia comprida, botas escuras e um casaco azul também comprido, um chapéu de abas largas com um pequeno adorno azul marinho que encobria parte de seu rosto fino, tornando-o um pouco misterioso e um pouco triste.
Sim, de fato”, concordei, “Se houver vida inteligente nesse planeta, certamente seu nome deve ser mais interessante.”
Ela sorriu.
Talvez cada um o nomeie como queira. Seria bastante democrático.”
Fechei a revista e recostei no banco.
Não sei como o chamaria se eu pudesse escolher. Talvez Bloomsbury.”
Ah, nomes...”, ela continuou, “definem tanto e tão pouco o que somos. Por que queremos tantas definições? ”
Estendi minha mão e lhe retruquei:
A propósito, me chamo Vanessa.”
Ela sorriu novamente, de modo triste e enigmático.
Como minha irmã. Eu me chamo Virginia.”
Não pude deixar de associar.
Sua irmã se chama Vanessa? Como Virginia Woolf e Vanessa Bell?”
Sim, exatamente”, ela respondeu o mesmo sorriso se formando em seus lábios finos. “Sou Virginia Woolf”, ela continuou enquanto ajeitava, elegantemente, suas luvas vermelhas.
No instante imediatamente seguinte a essa frase, por incrível que pareça, pensei em minha amiga. Por que ela não voltava para me ajudar naquela situação inusitada? Certamente a mulher devia sofrer de algum transtorno de personalidade, mas ao mesmo tempo, pensei por que logo pensar que era Virginia Woolf? Logo comigo?
Quer caminhar um pouco?”, ela perguntou, “Sei que você deve estar um pouco assombrada. Isso não costuma acontecer muito. Mas eu gosto quando alguém me reconhece.”
Eu estava tremendo, um misto de frio, ansiedade e nervosismo. Como assim quando alguém a reconhece? E perguntei:
Como?”
Sim, não consigo conversar com muitas pessoas, infelizmente. Acontece alguma coisa inexplicável nessas horas. Com você achei que ia conseguir, por isso puxei o assunto. Vamos caminhar um pouco? Gostaria de passar em frente ao hotel Tavistock.”
Mas como devo acreditar que você é Virginia Woolf em pessoa?”
Ela deu de ombros, enquanto se levantava.
Ah, não precisa acreditar. Não importa. De qualquer forma é bom conversar com você.”
Tentei organizar meus pensamentos, de modo a buscar um pouco de equilíbrio para aquela situação. Pensei que, se de fato eu estivesse vendo um fantasma, que pudesse me dar respostas, essa seria uma experiência incrível. De outro lado, era no mínimo inusitado encontrar alguém com um transtorno psiquiátrico que lhe fizesse pensar que era a melhor escritora de todos os tempos. Quem seria essa pessoa? Fiquei em silêncio por alguns instantes quando meu celular começou a tocar insistentemente. Era minha amiga.
Tenho muitas perguntas a lhe fazer, me espera”, eu disse enquanto procurava o celular na bolsa.
Atendi minha amiga no celular, e tentei lhe explicar de modo afobado e impaciente a situação em que me encontrava. Evidentemente ela não conseguia entender uma palavra. De alguma forma, eu precisava continuar ali, ainda que a mulher fosse completamente louca, eu precisava conhecer tudo que envolvia o nome de Virginia Woolf. Quando desliguei, ela tinha sumido. Desapareceu completamente. Andei o parque inteiro, fui até o Hotel Tavistock, mesmo endereço onde ficava a casa que os Woolf's viveram e onde ela escreveu a maioria dos seus romances. Andei, corri, observando todas as mulheres de chapéu e casaco azul, cada uma delas, uma estranha e obscura sensação de que ainda poderia encontrá-la novamente.
Desisti e horas depois, fui para a ceia de Natal na casa de minha amiga. Contei a história, ela desatou a rir e não acreditou, obviamente. Achou que era um delírio londrino de fim de ano.
Isso é pressão para acabar sua tese, isso sim.”
No dia seguinte, voltei ao mesmo lugar e encontrei uma caixa de madeira com meu nome gravado. Abri sem muita dificuldade e vi um papel rasgado onde pude ler:
I hope we may meet on Tuesday. V.W.”
Sorri e uma alegria misteriosamente intensa me tomou por completo. Certamente, na terça-feira, eu estaria ali novamente. À espera de Virginia Woolf.

(escrito para o clube da leitura do dia 20/12/2012)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

De como Clara conheceu o inescrutável mundo dos ratos (a origem)

Foi em uma tarde chuvosa que Clara descobriu o buraco na parede do quarto. Seu olhar estava perdido entre a cama e o videogame, segurando com a mão esquerda a caneta sobre o caderno, e confrontando, num tempo que parecia uma eternidade, o livro de ciências à sua frente. Precisava fazer uma redação que contivesse as palavras camundongo, lembranças, tufão e inescrutável. Mas que diabos significaria 'inescrutável'? Abriu o dicionário online onde leu: o que não pode ser indagado, impenetrável, incompreensível. Levou a caneta à boca, pensativamente, e escreveu em seu caderno:

Eis a minha lembrança do dia em que entrei num buraco de ratos. Como Alice no país das maravilhas, encolhi de tamanho e entrei. Só que cheguei no país inescrutável dos camundongos. Fiz amizade com um rato chamado Damião, que me mostrou sua coleção de queijos. Tinha queijo de tudo quanto era tipo: suíço, cheddar, prato, minas, bola, gouda, gorgonzola, mussarela, parmesão, e, inclusive, alguns que jamais tinha ouvido falar, como, bleu vercors, asiago e crottin de chavignol. Um dia comi um desses queijos porque estava muito curiosa e o camundongo Damião brigou comigo dizendo: “meu mundo é inescrutável, como ousa, humana, comer meus queijos?” Ele ficou tão furioso que me expulsou do seu mundo a pontapés e depois disso nunca mais o vi. Não consegui entender sua reação, mas como o mundo dele é inescrutável, não me preocupei muito com isso. FIM

E depois se lembrou do tufão. E o tufão?, pensou. Como iria colocar o tufão nessa história? Pensou mais um pouco, riscou o FIM e escreveu:

Sinto saudade de Damião, mas acho que, de tanta raiva, ele se transformou num tufão. FIM MESMO.

Pronto. Fechou o caderno não muito satisfeita com o resultado da redação e tentou se decidir entre um cochilo e um joguinho. Foi nesse exato instante que notou o buraco na parede e, saindo dele, uma cabeça cinzenta olhando à sua volta. Gelou. Sentiu que sua pressão havia caído instantaneamente (aprendeu sobre pressão arterial na aula de ciências e achou que serviria para alguma coisa). Colocou os pés sobre a cadeira, num movimento tão rápido quanto a a velocidade da luz, tentou gritar mas a voz não saía. Arregalou os olhos e tentou dizer algo, quando viu o bicho sair, levantar-se sobre as patas traseiras, colocar as patas dianteiras na cintura e examinar cuidadosamente o quarto da menina. Em poucos instantes, também ele se deu conta da presença de Clara.
Ah, é você? Excelente, é com você que preciso falar”, o rato disse com uma voz estridente.
Clara ficou muda e o rato andou com passos velozes e pequenos até a escrivaninha do quarto e a escalou, ágil e firme, como um chimpanzé. Clara foi se apertando na cadeira, olhando aquela correria toda, meio apavorada, meio intrigada e meio achando que havia enlouquecido.
Clara, veja bem, serei breve...”
Você fala?”, Clara gaguejou. “Você sabe meu nome?”, concluiu sem piscar, os olhos quase pulando de suas órbitas.
Claro que sei seu nome. Como posso não saber o nome da pessoa com quem divido o quarto?”
Clara ficou vermelha: “Eu não divido meu quarto com você. Nem com ninguém! Meu quarto é só meu!”
O rato deu uma gargalhada. Clara arregalou ainda mais os olhos. Depois o rato ficou sério novamente e disse:
Clara, eu estou aqui para fazer um pedido a você.”, A menina continuou olhando fixamente. “É algo muito importante. Espero que você entenda.”
Tá, pode pedir, vamos ver se posso ajudar você.”
Eu preciso que você diminua o volume do seu videogame. Eu não consigo dormir... e principalmente nos finais de semana. Trabalho a semana inteira, quando quero descansar, só escuto esses sons impossíveis desses jogos intermináveis. Eu faço o que você quiser, mas, ao menos, vamos combinar esses horários.”
Você trabalha a semana inteira?”
Sim, qual é o assombro?”
E qual seria seu trabalho?”
Sou fornecedor de queijos, ora.”
Ah, sim, claro, que óbvio!”, exclamou.
Não fuja do assunto, Clara, por favor, eu faço o que você quiser”.
Oquéi, eu preciso pensar, é..., qual o seu nome?”
Damião”, o rato disse com sua voz estridente.
Clara não se conteve e exclamou:
Damião é o nome do rato da minha redação! Como pode?”
Ah, Clara, sei lá, vai ver, no seu inconsciente, você sempre soube da minha existência. Afinal de contas, convivemos juntos há anos. Cadê essa redação? Deixa eu ler.”
Damião sentou-se sobre o caderno de Clara e passou a ler a redação escolar da menina.
Não me diga que você sabe ler também.”, Clara já não mais se surpreendia com coisa alguma.
Damião balançava a cabeça de um lado para o outro acompanhando as letras e as palavras escritas na caligrafia infantil de Clara. Ao final, inspirou profundamente o ar, olhou fixamente para Clara e disse:
Que história é essa de me transformar num tufão?”
Clara tentou ponderar que isso era o menos estranho de tudo, considerando um rato que fala, ri, trabalha, divide o quarto com ela, se incomoda com o barulho e ainda sabe ler.
Sim, mas essa redação está meio preguiçosa”, criticou o bichinho cinzento.
Tive uma ideia”, gritou Clara, quase ofegante. “Quero conhecer seu mundo, Damião.”
Levo você até meu mundo, se você prometer melhorar essa sua redação. Me transformar num tufão foi demais, Clara.”
Não complica, Damião! Já vou diminuir o som do videogame. Não está satisfeito?”
Damião pensou, pensou, levou a pata dianteira até o focinho e, por fim, aceitou o trato.
Tudo bem, então, siga-me.”
Colocou Clara em frente ao buraco na parede, tomou certa distância e soprou um sopro forte, inexplicavelmente intenso, quase furioso, que fez a menina girar e girar e girar e ir diminuindo de tamanho, até ficar muito pequenina.
Clara ficou tonta, atordoada e caiu no chão.
Quando levantou, viu Damião imenso, ao seu lado, dizendo:
Está tudo bem?”
Ela assentiu e, meio assombrada, meio intrigada, meio achando que havia enlouquecido, entrou no buraco, pensando em como a realidade é tão estranha quanto a fantasia.

(tentativa de conto infanto-juvenil para o clube da leitura do dia 11/10/2011)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Verdades sobre a arte


Uma verdade de Louise Bourgeois.

O abandono de Elisa

Elisa senta-se e desata a dizer coisas absurdas como se triviais fossem, assim, com a naturalidade absoluta de quem não sente culpa de nada. Às vezes parece se impor sem qualquer delicadeza, seu corpo intenso oprimindo minha necessidade de existência. Eu preciso apenas existir sem que ela me defina. Quando percebe que me incomoda, sorri e me afronta dizendo que sentir culpa é tentar se santificar, afirmativa com a qual me identifico de imediato. Você quer ser santo, ela me diz, os olhos arregalados e fixados em mim, vidrados pela possibilidade do meu iminente aborrecimento.
Tive um dia febril, eu digo, numa tentativa de torná-la mais dócil. Era quase uma súplica, o que, na verdade, era o que ela queria ouvir. Ela responde que todos os seus dias são febris e tenta me provocar. Ela tem curvas no corpo como na alma, eu penso, tentando traçar uma linha entre nossas sensações. Visualizo uma linha oblíqua o tempo inteiro. Elisa ri quando eu menos espero, chora em manhãs ensolaradas, desaparece por dias e me diz, sem qualquer sutileza, que vai me deixar em pouco tempo.
Mas antes mesmo que eu me aterrorize com sua ausência, ela volta, senta-se à minha janela e desata a contar os sonhos desconexos das noites anteriores. Às vezes sussurra, como se não quisesse ouvir sua própria voz. Sei que tem medos e sei que tem medo de mim. Desconfio, quando ela faz seus prognósticos, que não quer me dar escolhas e, em razão disso, me diz o que farei. Quando eu digo que ela não é razoável, ela me responde que não entendo sua lógica. Quando eu me esforço para entendê-la, ela sente tédio e diz vai embora. Sinto que ela poderia ver o mundo acabar, continuar impassível, e desabar em choro apenas no dia seguinte, como se ainda pudesse existir entre os destroços. É quando ela percebe que não há mérito algum em se impor sobre os restos da humanidade. Chega a ficar triste, mas é devastação o que ela deseja causar e seu prazer é desaparecer deixando seus rastros no caminho.
Percebi isso no dia em que ela me disse que não conseguiria viver sem mim.
Agora sei que ela não virá amanhã.

(conto escrito para o blog Caneta, Lente e Pincel, inspirado em imagem de Maria Matina, publicado em 11/10/2011)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Maman



... e voltamos à origem, sem a necessidade de explicações.
(Maman, de Louise Bourgeois, exposta no Mam, num domingo ensolarado de setembro)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Uma vez


Eis a singularidade de um dia de domingo. Descobrir uma história, ouvir uma vida inteira, tentar contar sonhos. Acreditar em contradições. Porque cada um é único e acontece apenas uma vez, ainda que se repita.

Querida Vanessa


Juliana tomou o grande embrulho vermelho em suas mãos com paixão incontida, tentando adivinhar qual seria aquele primeiro presente dele para ela.
“Um livro”, ela sugeriu, “não... é muito grande. São vários livros!”, com tom de extraordinária felicidade.
“Abre”, João tentava esconder a impaciência de saber se o presente agradaria ou não.
Ela o desembrulhou como a um bebê, cada dobra um pensamento deliciosamente constante de descoberta do outro, de se perceber naquilo que ele pensa que ela gostaria de ter, naquilo que a faria admirar-se de como ele a conhecia. A cada momento uma nova pista: primeiro a capa – dura com sobrecapa bege – depois o nome da editora na lombada – Harcourt Brace Jovanovich.

Contam outras histórias

Em 1/12/1984, Rita chegou no sobrado em Laranjeiras em que cresceu e abraçou seu pai e sua irmã, trazendo em sua bagagem alguns livros, discos, cartas e saudades imensas. O pai tentava esconder os olhos emocionados com o pragmatismo habitual, perguntando sobre a viagem ou por que não telefonou para que a buscassem no aeroporto. A irmã não soltava sua mão, suando saudades e amores em cada aperto. Vanessa, a amiga, entrou esbaforida em poucos minutos, correndo pela casa, abraços quentes de tardes de verão. Comeu doces feitos pela irmã, leu os artigos escritos pelo pai, viu as novas fotos tiradas pela amiga, distribuiu carinhos e refrescou o calor com copos de suco de abacaxi. Contou novidades não tão frescas assim, pois já as havia adiantado em cartas frequentes, mostrou fotos e descreveu os lugares mais fantásticos que viu.
“Primeira fotografia da sua volta”, Vanessa disse, “o entardecer em Laranjeiras é mais bonito com você aqui.”
Contou casos e lembranças até o anoitecer e as luzes da rua se acenderem e apagarem uma a uma.
“Primeiro presente da minha volta”, Rita disse e tirou um pacote de livros para a amiga, que abriu o embrulho com surpresa e alegria.
“As cartas de Virginia Woolf!”

e trazem uma dedicatória

“Querida Vanessa, eu havia acabado de ler uma carta sua, e pensava na resposta quando entrei numa livraria aqui em NY e me deparei com esses volumes para presenteá-la. Estava indo para a aula, nuvens trazendo gotículas de chuva acompanhavam um sol ameno de inverno e milhares de cores indefinidas atravessavam os prédios de tons cinza os mais variados. Lembra-se das tardes que passávamos juntas depois do curso de inglês? Faltam duas semanas para voltar, e o frio parece querer despejar todos os cariocas da cidade. Um frio mais gelado porque faltam suas risadas e nossas conversas. Como são estranhas algumas sensações de espaço e distância. Encontrei esses livros e senti você presente aqui, como se andando um quarteirão pudesse interfonar pra você. A cada dia aumentam as descobertas nessa cidade e, com elas, a certeza de que não preciso de mais do que já tenho no Rio. Com amor, Rita.”

Uma nova anotação ao lado do borrão onde antes havia um preço escrito a lápis:

“Para você, Juliana, meu amor, uma dedicatória alheia e as inúmeras histórias aqui contidas. Feliz Natal! João.”

E vários finais

No ano de 2004, Vanessa se jogou da janela do décimo andar de um prédio no Largo do Machado. Juliana e João haviam acabado de se conhecer, apresentados por um amigo que trabalhava num bar em Copacabana. Cinco dos seis volumes que compilavam as cartas de Virginia Woolf ficaram adormecidos na estante da casa da mãe de Vanessa, até que ela decidiu vendê-los para um sebo a tempo de João encontrar o presente de Natal para sua namorada.
E na mesma noite em que João escreve uma nova dedicatória a Juliana, Rita relê um volume desgarrado da compilação de cartas de VW, lembrando de um certo dia quente há vinte anos.
“Please write an account of your entire day from dawn to sunset.”

(este conto foi publicado na Revista Outros Baratos no inverno de 2006 sob o título Velhas Cartas)

domingo, 18 de setembro de 2011

A última dose

Tropeçou. Caiu. Levantou. Tropeçou. Caiu. Levantou. Tropeçou. Caiu. Ficou. Foi encontrado estendido na calçada às 5 da manhã.


Alice e Camila


As coisas não acontecem como esperamos e Alice assinou os papéis da separação. Tirou o restante do dia de folga, pensou no que faria, andou pelo centro da cidade, comprou um perfume, um sapato e meias-calças, ligou para Camila, se encontraram e saíram juntas para beber. Camila trabalhava numa galeria de arte, tocava saxofone e piano, tinha um blog onde escrevia diariamente impressões sobre arte e fotografia, e, nas horas vagas, saía com Bruno, um amigo, só um amigo, como sempre repetia para Alice.

Já Alice não estava saindo com ninguém. Tentava pôr em ordem sua vida, alugou um pequeno apartamento em Copacabana, trancou o mestrado em literatura portuguesa e fez uma lista de coisas que precisava comprar para equipar sua nova vida de solteira.

Saca-rolhas, ela escreveu, em primeiro lugar.

Camila riu e disse que ela não devia ficar se embebedando sozinha em casa, que, pelo menos, a chamasse pra se embebedar também, disse ainda que já era hora de dar uma chance para alguém que lhe parecesse mais interessante, que seria difícil mesmo recomeçar, mas que era necessário ultrapassar esse obstáculo.

E assim aconteceu. Alice começou a sair com Gustavo, trinta e oito anos, editor do caderno de literatura de um grande jornal, dois filhos gêmeos de um casamento desfeito, problemas com ex-mulher, pensão, finais de semana em parques de diversões e almoços de família. Não muito tempo depois, Alice conheceu Rafael: quarenta anos, solteiro, sem filhos, professor de alemão, viajou pra Europa e decidiu lá ficar, correios eletrônicos durante algumas semanas, e depois, Alice conheceu Luís. Depois de Luís, Alice conheceu um arqueólogo, dois advogados, e um veterinário enquanto Camila continuava saindo esporadicamente com Bruno, que era um amigo, apenas um amigo, como ainda repetia para Alice.

Numa certa noite de agosto, era sexta-feira e chovia um pouco, Alice e Camila tinham desistido de ir a uma festa no Leblon, e ficaram bebendo vinho e vendo um filme do Bertolucci no DVD quando perceberam que gostavam tanto uma da outra que procurar alguém pra compartilhar aqueles momentos passou a ter cada vez menos importância. Num impulso, Camila deu um beijo em Alice. E Alice sentiu uma inquietação tão grande que apertou com força a mão de Camila. E as duas se beijaram novamente, enquanto, na tela de 29 polegadas da TV, Lyv Tyler, sentada nua numa banheira, escrevia em pedaços de papel: “I hope you’ll come and rattle me”.

Meses depois, Alice e Camila foram morar juntas num apartamento de dois quartos em Laranjeiras. Alice foi promovida e Camila fez sua primeira exposição de fotos na galeria onde trabalha. No ano seguinte, adotaram um menino de três anos chamado Francisco. E enquanto Camila tocava melodias de Chopin ao piano, Alice lia livros sobre como educar meninos.

Bruno – aquele que era “só-um-amigo” – agora é padrinho de Francisco e, durante essa história toda, acabou conhecendo Mariana, a advogada que acompanhou a adoção do pequeno menino. Bruno e Mariana hoje são bons amigos que, eventualmente, saem juntos.

E, justamente porque as coisas não acontecem como esperamos, Alice, Camila e Francisco estão vivendo muito felizes, até hoje.

Ah, e Bruno e Mariana também. Mas são apenas amigos, claro.


(publicado no Caneta, Lente e Pincel em 28/06/2010, com linda imagem de Fernanda Franco, em rodada invertida, inspirada no texto)

Inverno, Domingo, 13:32


Pra lembrar que quero o que é natural e o que é construído.
Tudo ao mesmo tempo.
Domingo, às 13h:32min, tive a percepção dessa possibilidade.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O grito

Acordou. Percebeu que, aos poucos, havia deixado de existir. Eles venceram. Abriu a janela, se debruçou e deu um grito. Ninguém respondeu.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

I’ve got a feeling we’re not in Kansas anymore


Um intrigante dia de inverno, em que as quatro estações do ano decidiram conspirar com sol, frio, flores e folhas secas. Outro dia de buscas que terminou com mais perguntas. Onde é o lugar que eu procuro? O que é esse lugar? Chego de bicicleta? E essa procura vira um esforço contínuo de memórias e perspectivas, desejos e possibilidades, tentativas e novidades. A busca é um movimento intenso, de ângulos enigmáticos. Dorothy parece ter encontrado uma solução.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Noite


Noites de insônia fazem as estrelas mais bonitas parecerem monótonas e repetitivas.

Memória


O tempo se fixa num ponto remoto, onde o olhar dela se perde à procura de um instante pretérito, de uma criança que já cresceu, de uma avó ainda viva, de um momento que se fingia duradouro. O tempo se fixa nesse ponto de impermanência da memória, onde tudo parece tão fugaz que chega a ser perfeito, porque recriado a cada novo instante. A reengenharia intensiva da memória.
O olhar se perde em crianças que já mudaram a cor dos cabelos. Em jogos nostálgicos de pião. Em palavras hipnóticas de uma verdade relativa. Em sonhos desfeitos por tropeços do acaso.
O olhar se perde e reconstrói novos acasos. Reconstrói, por vezes, o próprio desconhecido.
O olhar se perde ali, exatamente numa esquina da memória, de onde ela espera sair alguém que solucione a equação de um momento que imaginou ser eterno.

domingo, 20 de março de 2011

Tentativa


Correndo de mim
tenta na areia
fugir do haicai.

Dúvida


Alter ego, fantasia ou disfarce?

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cenas de casamento - 02


O persistente estado de dúvida. Para onde devo ir?

Um conto para ela...


... pois naquela manhã, fez exatamente o que costumava fazer todos os dias. Bebeu com pressa um café quente e forte, depois de tomar banho e lavar os cabelos embaraçados pelos sonhos distraídos da noite anterior. Deixou dois dedos de café na xícara roxa, fez um carinho descuidado no cachorro, e disse algo como:

Precisamos visitar sua irmã qualquer dia desses”,

Escovou os dentes durante seis minutos, vestiu uma meia-calça preta, um vestido preto e um casaco preto e ele, enquanto observava aquela agitação matinal, chegou a pensar que preferia quando ela usava tons claros como, por exemplo, o branco ou o bege. Mas ela gostava de usar preto e, ao sair, deu-lhe um beijo ligeiro enquanto ele lia o jornal daquela sexta-feira treze.

Ele não sabe o que aconteceu durante aquele dia porque só falou com ela uma vez, às 13 horas e 13 minutos, quando telefonou durante seu horário de almoço, perguntando se ela levara o carro à oficina. Mas, na verdade, não era essa a pergunta que ele queria ter feito. Ela respondeu que não, que precisaria do carro no dia seguinte, mas que, depois, ela própria o levaria ao mecânico. Ele disse que tudo bem e desligaram, pensando que se veriam dali a algumas horas.

Era sexta-feira treze e começou a chover torrencialmente, depois de semanas de um calor insuportável.

Por mais que tentasse esquecer, ele sempre se lembraria desses pequenos detalhes.

Quando, à noite, ela chegou em casa, ele estava sentado numa bergères anos 40 de cor azul escura que haviam comprado num leilão no flamengo, enquanto ouvia um disco do Paul Simon, bebia um copo de gin tônica e lia uma revista semanal. Numa outra noite qualquer, ela acharia graça da mistura dos elementos temporais daquela cena, mas isso não lhe passou pela cabeça naquele instante.

Ela colocou a bolsa na mesa de centro e sentou-se numa banqueta à sua frente. Bebeu um gole do gin tônica e disse como se tivesse ensaiado aquela frase durante a volta para casa:

Vou embora. Vou fazer minha mala.”

Ele ficou mudo. E perguntou apenas:

Por quê?”

Ao que ela respondeu que não havia uma razão.

Não há uma razão”, ela disse e enquanto o silêncio dele perdurava. Nessa breve frase, ele via centenas de razões possíveis para aquela atitude.

Talvez a falta de talento dele para a mecânica que a obrigava a levar o carro à oficina sempre que precisavam; talvez a rotina tão desejada por alguns e tão temida por outros; talvez o medo de chegar em casa e ele não estar sentado na poltrona anos 40 que compraram num leilão no flamengo; talvez a vontade de ter o filho que ele não queria; ou uma paixão antiga que havia voltado; porventura o silêncio que ela procurava e ele lhe dava agora, pelo motivo errado, por não saber o que dizer; ou o café que era muito forte; as manchetes violentas do jornal que ele comprava; ou a falta de leituras mais edificantes; quem sabe o pragmatismo do cotidiano; quem sabe a ideologia perdida há anos, muitos anos; talvez fosse tudo isso. Um acúmulo de fatores ao longo do tempo.

Contudo, o motivo perde importância diante do fato inequívoco de que ela estava indo embora.

Olhou para ele, sentado na poltrona azul, e nem imaginou que ele sabia.

Ele sabia que podia pensar o que quisesse. Pois não era nada disso.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Valentina e o outro


Esta noite, Valentina se despiu para um outro homem cujo nome não sei. Soltou seu cabelo castanho escuro, sempre preso num rabo de cavalo, sentou-se sobre esse homem e o beijou profunda e longamente. Fazia três meses que ela não dormia com ninguém. Assim como eu. Foi no dia 20 de fevereiro que ela me disse, resumidamente, que havia se cansado de mim, das minhas preocupações, das minhas manias. Disse que deveríamos buscar cada um o seu caminho, que éramos muito diferentes, mas, ainda assim, que poderíamos ser amigos, bons amigos, um dia quem sabe.

Um dia, quem sabe, eu me esqueço dela de vez. E seu nome não me causará mais tremor algum. Nem qualquer desejo.

Mas hoje, agora, ainda posso sentir cada curva de seu corpo, todas as suas texturas, cheiros e gostos, sem esquecer um só detalhe. Não me esqueço das suas brotoejas na nuca, que a forçavam a usar os cabelos presos quase todo o tempo. Não me esqueço das manchas de sol nas costas, dos ossos salientes dos joelhos e dos cotovelos, do calo no dedo anular da mão direita, da cicatriz na perna esquerda, das veias dos seus pés quando voltavam doloridos das aulas de balé.

Não me esqueço do seu sorriso desconfiado quando me escutava falar. Não me esqueço das suas gargalhadas enquanto me fazia cócegas. Não me esqueço dos seus pelos arrepiados quando eu falava coisas doces ao seu ouvido. Não me esqueço da textura da palma da sua mão acariciando meu rosto ao acordar. Não me esqueço das suas lágrimas quando se comovia com um filme ou um livro qualquer. Não esqueço que as coisas começaram a ter um fim quando tudo mais a comovia, exceto eu.

Nesta noite, eu estava lendo um livro de Borges quando me veio essa sensação. Sobreveio o medo de nunca mais tocá-la, de esquecer sua voz se por acaso um dia ela me telefonar, de não ouvir ideias novas da sua boca, de não saber se seus sonhos mudaram ou se seus gostos continuam os mesmos. Sobreveio o medo de descobrir que apenas ela, e mais ninguém, conheceria tão bem os meus sonhos, os meus gostos, as minhas ideias, a minha voz.

Neste momento então, eu percebi que ela estava com outro homem. Que seu corpo nunca esteve tão distante de mim, que, de fato, minha identidade jazia resumida definitivamente na expressão “ex”.

Era madrugada, e, enquanto eu tomava um conhaque, Valentina bebia um copo de vinho. Enquanto eu tremia de medo, saudade e frio, Valentina tirava sua roupa, tremendo de excitação e desejo. Enquanto eu tentava ler Borges, Valentina beijava um outro homem. Enquanto eu pensava nela, Valentina me esquecia.

E essa noite foi tão perturbadora que senti que estávamos separados não há três meses apenas, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos.

Acendi um cigarro, próximo à janela, enquanto esperava amanhecer. Valentina, perto dali, olhava o mesmo céu, deixando o outro adormecer em sua cama.

Neste exato e breve instante, eu soube que, por alguma razão, ela também pensava em mim.

terça-feira, 1 de março de 2011

Insônia


Somente eu sabia que, naquele momento, ela sonhava. Seus olhos se mexiam sob as pálpebras num movimento desordenado, como se fossem um reflexo de sua própria vida. Num momento, seus anseios eram pelo silêncio, em outro, por música alta e exclamações. Às vezes, temores infundados a invadiam como tsunamis inesperados e violentos. Outras vezes, eu me assustava com a sua coragem. Num dia, ela escalava a Pedra da Gávea, no outro tinha medo de viajar de avião. Quando lhe disse o quão contraditório era seu comportamento , ela me respondeu:

Apenas não gosto de sentir que minha vida está nas mãos de outra pessoa”.

Eram quatro horas e vinte e um minutos da madrugada do dia 11 de fevereiro e ela ainda sonhava, quando decidi deixá-la.

Talvez por seu temperamento incoerente que eu mal conseguia acompanhar. Talvez por causa dos momentos em que eu me sentia dispensável frente à sua autossuficiência manifesta. Talvez pelas contradições que me eram arremessadas quase que diariamente. Ou por nada disso, mas, apenas, por achar que minha vida estava excessivamente em suas mãos.

Ela, alheia à minha insônia, continuava a dormir, profunda e distraidamente. Fiquei me perguntando com o que ela sonhava. Sei que sonhava muito e se deliciava com o absurdo de alguns sonhos.

Certa noite, me acordou agitada:

Sonhei que estava perdida, no meio de um labirinto sem fim. Parecia um desenho do Escher. Eu podia chegar a vários lugares, mas ao mesmo tempo, não chegava a lugar algum. Senti que você não existia. Ou tinha me abandonado. Ou fui eu que tinha abandonado você. Só sei que dependia apenas de mim chegar a algum lugar. E eu não chegava. Não chegava. Estava tão cansada. Até que acordei.”

Eu queria saber se hoje ela sonhava com labirintos, abismos ou perseguições. Se sonhava comigo ou se também tentava me alienar de seu inconsciente.

Sou apaixonado por você”, eu disse sussurrando, às quatro horas e trinta e cinco minutos, tentando adivinhar o que seus olhos buscavam debaixo das suas pálpebras pálidas. Tentei invadir seu sono como ela invadia minha vida.

Num domingo nublado, ela me disse estar apaixonada, mas depois se retraiu com minha resposta: eu sou completamente louco por você. Paixão. Era o que ela queria ouvir e eu era incapaz de dizer. Eu, atrasado e tímido, só consegui dizer isso na noite em que decidi deixá-la, enquanto ela dormia e sonhava mais um de seus sonhos desconhecidos.

Eu queria dormir e, com o sono, tentar esquecer essa vontade de, ao mesmo tempo, estar com ela e abandoná-la no seu labirinto de contradições.

Às quatro horas e cinquenta e dois minutos, ela se virou de costas e levantou o braço direito sobre a cabeça. Abriu um pouco a boca, murmurou algo ininteligível e molhou os lábios com a língua.

Vou deixar você hoje”, eu falei.

Depois, ela não se mexeu mais e percebi que seus olhos também se acalmaram. De repente, ficou estranhamente quieta. Por um momento, achei que pudesse ter escutado o que eu disse, mas ela não me ouvia, sequer quando estava acordada. Escutava apenas o que lhe interessava. Fiquei acompanhando as idas e vindas do seu peito, no ritmo tranquilo da sua respiração, enquanto cogitava o que lhe diria quando acordasse, como faria para deixá-la e, até mesmo, quais seriam suas palavras em reação às minhas.

Ela dormia, sonhava ou não, e eu criava discussões imaginárias dentro de mim.

Às cinco horas, pontual como ela nunca foi, acordou e me olhou. Esfregou os olhos, se espreguiçou, me perguntou levemente intrigada se eu já tinha acordado e, sem esperar a resposta, me pediu, de um jeito doce, todo próprio:

Fica comigo hoje, o dia inteiro?” 
 
Esqueci minhas resoluções insones. Meus debates silenciosos.

Sorri.

E, simplesmente, decidi ficar.

(conto escrito para um desenho de Eduardo Filipe (Sama), para o blog Caneta, Lente e Pincel (postado em 25/02/2011)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O beijo salamandra


Voo LH7357. Partida: 22 horas e 35 minutos. O destino era Frankfurt, onde meu futuro marido estava de férias, há quase duas semanas, me esperando para que, enfim, eu conhecesse sua família materna. Em minha bagagem de mão, eu levava um ipod, um jornal, dois livros e três revistas: meu estratagema para distrair os sentidos e tolerar as 11 horas e 44 minutos de voo previstas.

Eu sabia que minha angústia não era sintoma apenas do enfrentamento consciente da minha claustrofobia disfarçada. Tomei um calmante e tentei não pensar nas horas de voo. Bem como tentei esquecer que em poucas semanas me casaria, me concentrando apenas em meus companheiros de voo, os únicos habitantes de um mundo à parte em que me encontrava temporariamente. Pelo menos em 11 horas e 44 minutos, eu não pensaria no meu trabalho, em preparativos de casamento, em prestações de casa, de carro, em obras necessárias, em listas de convidados.

Buscando um mínimo de conforto, sentei-me, coloquei o cinto e abri um livro da Clarice, esperando que suas histórias me ajudassem a chegar ao meu destino “Frankfurt”. Ou, talvez, a um destino qualquer, ainda que outro ignorado. Talvez eu buscasse um destino lispectoriano, outro diverso daquela cidade alemã e de uma família prestes a ser constituída. Meu destino sinto-falta-de-algo-que-seja-apenas-eu-mesma.

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Ainda estou apaixonada? Eu me perguntava enquanto meus olhos se desviaram do texto e se fixaram em algum ponto da revista científica com que se distraía o homem sentado na poltrona ao lado. Meu olhar distraído deve tê-lo atrapalhado em sua leitura, pois em pouco tempo, se pôs a explicar-me o artigo que estava lendo.
Estão pesquisando sobre como as salamandras conseguem regenerar membros e órgãos feridos. Elas conseguem regenerar até partes de seu cérebro e da coluna vertebral.”
Como?”, perguntei um pouco sobressaltada.
Parece que existe uma enzima nas salamandras que as tornam capazes de se regenerar”.
Me desculpe, eu...”
É, é incrível. A ideia é descobrir algo que possa ajudar a regeneração dos tecidos humanos.”
Membros também?”
Sim, sim. Quem sabe nossos netos ou bisnetos possam ver algo do tipo”.
Quem sabe... não sei, não sou muito otimista quanto ao assunto”, eu respondi, pensando, na verdade, se seríamos capazes de regerar qualquer coisa destruída. Um sentimento qualquer ou, até mesmo, uma paixão.

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Algumas matérias científicas depois, estávamos rindo juntos e falando de amenidades. Depois de alguns copos de bebida, piadas sobre aviões. Depois de silêncios intermitentes, recordações sem nomes. Livros e revistas deixados de lado. Breves cochilos. Uma conversa, entre sussurros, enquanto quase todos dormiam. O esquecimento das horas. Poucas luzes acesas. Um beijo. Sim, ele me beijou. Ou fui eu que o beijei, de forma confusa e inesperada, um beijo misto de desconhecido e algo já testemunhado, um beijo insatisfeito, um beijo duvidoso, impenetrável, nossas mãos desconexas apertando braços sensivelmente perplexos. Eu o beijei como se não existisse mais ninguém ali, ao nosso lado, em nossas vidas. Nos beijamos como Molly e Leopold Bloom. Um beijo fluxo de consciência. Um beijo que se compreendia por si mesmo. Nos beijamos como Rick e Ilsa. Um beijo casablanca, de despedida, de saudade. Um beijo que nunca iria se satisfazer por completo. Nos beijamos como Totó e Elena. Um beijo cinema paradiso. Molhado, surpreso, inesperado. Nos beijamos como Holly Golightly e Paul Varjak. Um beijo moon river. Um beijo final feliz.
Final feliz ou não, beijei o homem da poltrona ao lado essa única vez. Pousamos em Frankfurt e nos despedimos com um breve e conciso aperto de mão. Não trocamos endereços, telefones, nem sequer nomes. Era possível esquecermos daquele beijo em pouco tempo. Era possível lembrarmos apenas quando contássemos para um amigo íntimo, depois de algumas doses de vodca ou conhaque. Era provável não nos vermos nunca mais.

Algum tempo se passou, e às vezes, quando estou quase dormindo, ou quase acordando, quando vou pegar minha filha na escola ou quando saio pra andar de bicicleta sozinha, quando vou à farmácia ou quando estou dirigindo pro trabalho, nessas horas, eu penso nele. Penso nele e naquele beijo inesperado. Um beijo que é sempre um vir-a-ser. Um beijo regeneração. Nosso beijo salamandra.