sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O beijo salamandra


Voo LH7357. Partida: 22 horas e 35 minutos. O destino era Frankfurt, onde meu futuro marido estava de férias, há quase duas semanas, me esperando para que, enfim, eu conhecesse sua família materna. Em minha bagagem de mão, eu levava um ipod, um jornal, dois livros e três revistas: meu estratagema para distrair os sentidos e tolerar as 11 horas e 44 minutos de voo previstas.

Eu sabia que minha angústia não era sintoma apenas do enfrentamento consciente da minha claustrofobia disfarçada. Tomei um calmante e tentei não pensar nas horas de voo. Bem como tentei esquecer que em poucas semanas me casaria, me concentrando apenas em meus companheiros de voo, os únicos habitantes de um mundo à parte em que me encontrava temporariamente. Pelo menos em 11 horas e 44 minutos, eu não pensaria no meu trabalho, em preparativos de casamento, em prestações de casa, de carro, em obras necessárias, em listas de convidados.

Buscando um mínimo de conforto, sentei-me, coloquei o cinto e abri um livro da Clarice, esperando que suas histórias me ajudassem a chegar ao meu destino “Frankfurt”. Ou, talvez, a um destino qualquer, ainda que outro ignorado. Talvez eu buscasse um destino lispectoriano, outro diverso daquela cidade alemã e de uma família prestes a ser constituída. Meu destino sinto-falta-de-algo-que-seja-apenas-eu-mesma.

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Ainda estou apaixonada? Eu me perguntava enquanto meus olhos se desviaram do texto e se fixaram em algum ponto da revista científica com que se distraía o homem sentado na poltrona ao lado. Meu olhar distraído deve tê-lo atrapalhado em sua leitura, pois em pouco tempo, se pôs a explicar-me o artigo que estava lendo.
Estão pesquisando sobre como as salamandras conseguem regenerar membros e órgãos feridos. Elas conseguem regenerar até partes de seu cérebro e da coluna vertebral.”
Como?”, perguntei um pouco sobressaltada.
Parece que existe uma enzima nas salamandras que as tornam capazes de se regenerar”.
Me desculpe, eu...”
É, é incrível. A ideia é descobrir algo que possa ajudar a regeneração dos tecidos humanos.”
Membros também?”
Sim, sim. Quem sabe nossos netos ou bisnetos possam ver algo do tipo”.
Quem sabe... não sei, não sou muito otimista quanto ao assunto”, eu respondi, pensando, na verdade, se seríamos capazes de regerar qualquer coisa destruída. Um sentimento qualquer ou, até mesmo, uma paixão.

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Algumas matérias científicas depois, estávamos rindo juntos e falando de amenidades. Depois de alguns copos de bebida, piadas sobre aviões. Depois de silêncios intermitentes, recordações sem nomes. Livros e revistas deixados de lado. Breves cochilos. Uma conversa, entre sussurros, enquanto quase todos dormiam. O esquecimento das horas. Poucas luzes acesas. Um beijo. Sim, ele me beijou. Ou fui eu que o beijei, de forma confusa e inesperada, um beijo misto de desconhecido e algo já testemunhado, um beijo insatisfeito, um beijo duvidoso, impenetrável, nossas mãos desconexas apertando braços sensivelmente perplexos. Eu o beijei como se não existisse mais ninguém ali, ao nosso lado, em nossas vidas. Nos beijamos como Molly e Leopold Bloom. Um beijo fluxo de consciência. Um beijo que se compreendia por si mesmo. Nos beijamos como Rick e Ilsa. Um beijo casablanca, de despedida, de saudade. Um beijo que nunca iria se satisfazer por completo. Nos beijamos como Totó e Elena. Um beijo cinema paradiso. Molhado, surpreso, inesperado. Nos beijamos como Holly Golightly e Paul Varjak. Um beijo moon river. Um beijo final feliz.
Final feliz ou não, beijei o homem da poltrona ao lado essa única vez. Pousamos em Frankfurt e nos despedimos com um breve e conciso aperto de mão. Não trocamos endereços, telefones, nem sequer nomes. Era possível esquecermos daquele beijo em pouco tempo. Era possível lembrarmos apenas quando contássemos para um amigo íntimo, depois de algumas doses de vodca ou conhaque. Era provável não nos vermos nunca mais.

Algum tempo se passou, e às vezes, quando estou quase dormindo, ou quase acordando, quando vou pegar minha filha na escola ou quando saio pra andar de bicicleta sozinha, quando vou à farmácia ou quando estou dirigindo pro trabalho, nessas horas, eu penso nele. Penso nele e naquele beijo inesperado. Um beijo que é sempre um vir-a-ser. Um beijo regeneração. Nosso beijo salamandra.