domingo, 20 de março de 2011

Tentativa


Correndo de mim
tenta na areia
fugir do haicai.

Dúvida


Alter ego, fantasia ou disfarce?

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cenas de casamento - 02


O persistente estado de dúvida. Para onde devo ir?

Um conto para ela...


... pois naquela manhã, fez exatamente o que costumava fazer todos os dias. Bebeu com pressa um café quente e forte, depois de tomar banho e lavar os cabelos embaraçados pelos sonhos distraídos da noite anterior. Deixou dois dedos de café na xícara roxa, fez um carinho descuidado no cachorro, e disse algo como:

Precisamos visitar sua irmã qualquer dia desses”,

Escovou os dentes durante seis minutos, vestiu uma meia-calça preta, um vestido preto e um casaco preto e ele, enquanto observava aquela agitação matinal, chegou a pensar que preferia quando ela usava tons claros como, por exemplo, o branco ou o bege. Mas ela gostava de usar preto e, ao sair, deu-lhe um beijo ligeiro enquanto ele lia o jornal daquela sexta-feira treze.

Ele não sabe o que aconteceu durante aquele dia porque só falou com ela uma vez, às 13 horas e 13 minutos, quando telefonou durante seu horário de almoço, perguntando se ela levara o carro à oficina. Mas, na verdade, não era essa a pergunta que ele queria ter feito. Ela respondeu que não, que precisaria do carro no dia seguinte, mas que, depois, ela própria o levaria ao mecânico. Ele disse que tudo bem e desligaram, pensando que se veriam dali a algumas horas.

Era sexta-feira treze e começou a chover torrencialmente, depois de semanas de um calor insuportável.

Por mais que tentasse esquecer, ele sempre se lembraria desses pequenos detalhes.

Quando, à noite, ela chegou em casa, ele estava sentado numa bergères anos 40 de cor azul escura que haviam comprado num leilão no flamengo, enquanto ouvia um disco do Paul Simon, bebia um copo de gin tônica e lia uma revista semanal. Numa outra noite qualquer, ela acharia graça da mistura dos elementos temporais daquela cena, mas isso não lhe passou pela cabeça naquele instante.

Ela colocou a bolsa na mesa de centro e sentou-se numa banqueta à sua frente. Bebeu um gole do gin tônica e disse como se tivesse ensaiado aquela frase durante a volta para casa:

Vou embora. Vou fazer minha mala.”

Ele ficou mudo. E perguntou apenas:

Por quê?”

Ao que ela respondeu que não havia uma razão.

Não há uma razão”, ela disse e enquanto o silêncio dele perdurava. Nessa breve frase, ele via centenas de razões possíveis para aquela atitude.

Talvez a falta de talento dele para a mecânica que a obrigava a levar o carro à oficina sempre que precisavam; talvez a rotina tão desejada por alguns e tão temida por outros; talvez o medo de chegar em casa e ele não estar sentado na poltrona anos 40 que compraram num leilão no flamengo; talvez a vontade de ter o filho que ele não queria; ou uma paixão antiga que havia voltado; porventura o silêncio que ela procurava e ele lhe dava agora, pelo motivo errado, por não saber o que dizer; ou o café que era muito forte; as manchetes violentas do jornal que ele comprava; ou a falta de leituras mais edificantes; quem sabe o pragmatismo do cotidiano; quem sabe a ideologia perdida há anos, muitos anos; talvez fosse tudo isso. Um acúmulo de fatores ao longo do tempo.

Contudo, o motivo perde importância diante do fato inequívoco de que ela estava indo embora.

Olhou para ele, sentado na poltrona azul, e nem imaginou que ele sabia.

Ele sabia que podia pensar o que quisesse. Pois não era nada disso.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Valentina e o outro


Esta noite, Valentina se despiu para um outro homem cujo nome não sei. Soltou seu cabelo castanho escuro, sempre preso num rabo de cavalo, sentou-se sobre esse homem e o beijou profunda e longamente. Fazia três meses que ela não dormia com ninguém. Assim como eu. Foi no dia 20 de fevereiro que ela me disse, resumidamente, que havia se cansado de mim, das minhas preocupações, das minhas manias. Disse que deveríamos buscar cada um o seu caminho, que éramos muito diferentes, mas, ainda assim, que poderíamos ser amigos, bons amigos, um dia quem sabe.

Um dia, quem sabe, eu me esqueço dela de vez. E seu nome não me causará mais tremor algum. Nem qualquer desejo.

Mas hoje, agora, ainda posso sentir cada curva de seu corpo, todas as suas texturas, cheiros e gostos, sem esquecer um só detalhe. Não me esqueço das suas brotoejas na nuca, que a forçavam a usar os cabelos presos quase todo o tempo. Não me esqueço das manchas de sol nas costas, dos ossos salientes dos joelhos e dos cotovelos, do calo no dedo anular da mão direita, da cicatriz na perna esquerda, das veias dos seus pés quando voltavam doloridos das aulas de balé.

Não me esqueço do seu sorriso desconfiado quando me escutava falar. Não me esqueço das suas gargalhadas enquanto me fazia cócegas. Não me esqueço dos seus pelos arrepiados quando eu falava coisas doces ao seu ouvido. Não me esqueço da textura da palma da sua mão acariciando meu rosto ao acordar. Não me esqueço das suas lágrimas quando se comovia com um filme ou um livro qualquer. Não esqueço que as coisas começaram a ter um fim quando tudo mais a comovia, exceto eu.

Nesta noite, eu estava lendo um livro de Borges quando me veio essa sensação. Sobreveio o medo de nunca mais tocá-la, de esquecer sua voz se por acaso um dia ela me telefonar, de não ouvir ideias novas da sua boca, de não saber se seus sonhos mudaram ou se seus gostos continuam os mesmos. Sobreveio o medo de descobrir que apenas ela, e mais ninguém, conheceria tão bem os meus sonhos, os meus gostos, as minhas ideias, a minha voz.

Neste momento então, eu percebi que ela estava com outro homem. Que seu corpo nunca esteve tão distante de mim, que, de fato, minha identidade jazia resumida definitivamente na expressão “ex”.

Era madrugada, e, enquanto eu tomava um conhaque, Valentina bebia um copo de vinho. Enquanto eu tremia de medo, saudade e frio, Valentina tirava sua roupa, tremendo de excitação e desejo. Enquanto eu tentava ler Borges, Valentina beijava um outro homem. Enquanto eu pensava nela, Valentina me esquecia.

E essa noite foi tão perturbadora que senti que estávamos separados não há três meses apenas, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos.

Acendi um cigarro, próximo à janela, enquanto esperava amanhecer. Valentina, perto dali, olhava o mesmo céu, deixando o outro adormecer em sua cama.

Neste exato e breve instante, eu soube que, por alguma razão, ela também pensava em mim.

terça-feira, 1 de março de 2011

Insônia


Somente eu sabia que, naquele momento, ela sonhava. Seus olhos se mexiam sob as pálpebras num movimento desordenado, como se fossem um reflexo de sua própria vida. Num momento, seus anseios eram pelo silêncio, em outro, por música alta e exclamações. Às vezes, temores infundados a invadiam como tsunamis inesperados e violentos. Outras vezes, eu me assustava com a sua coragem. Num dia, ela escalava a Pedra da Gávea, no outro tinha medo de viajar de avião. Quando lhe disse o quão contraditório era seu comportamento , ela me respondeu:

Apenas não gosto de sentir que minha vida está nas mãos de outra pessoa”.

Eram quatro horas e vinte e um minutos da madrugada do dia 11 de fevereiro e ela ainda sonhava, quando decidi deixá-la.

Talvez por seu temperamento incoerente que eu mal conseguia acompanhar. Talvez por causa dos momentos em que eu me sentia dispensável frente à sua autossuficiência manifesta. Talvez pelas contradições que me eram arremessadas quase que diariamente. Ou por nada disso, mas, apenas, por achar que minha vida estava excessivamente em suas mãos.

Ela, alheia à minha insônia, continuava a dormir, profunda e distraidamente. Fiquei me perguntando com o que ela sonhava. Sei que sonhava muito e se deliciava com o absurdo de alguns sonhos.

Certa noite, me acordou agitada:

Sonhei que estava perdida, no meio de um labirinto sem fim. Parecia um desenho do Escher. Eu podia chegar a vários lugares, mas ao mesmo tempo, não chegava a lugar algum. Senti que você não existia. Ou tinha me abandonado. Ou fui eu que tinha abandonado você. Só sei que dependia apenas de mim chegar a algum lugar. E eu não chegava. Não chegava. Estava tão cansada. Até que acordei.”

Eu queria saber se hoje ela sonhava com labirintos, abismos ou perseguições. Se sonhava comigo ou se também tentava me alienar de seu inconsciente.

Sou apaixonado por você”, eu disse sussurrando, às quatro horas e trinta e cinco minutos, tentando adivinhar o que seus olhos buscavam debaixo das suas pálpebras pálidas. Tentei invadir seu sono como ela invadia minha vida.

Num domingo nublado, ela me disse estar apaixonada, mas depois se retraiu com minha resposta: eu sou completamente louco por você. Paixão. Era o que ela queria ouvir e eu era incapaz de dizer. Eu, atrasado e tímido, só consegui dizer isso na noite em que decidi deixá-la, enquanto ela dormia e sonhava mais um de seus sonhos desconhecidos.

Eu queria dormir e, com o sono, tentar esquecer essa vontade de, ao mesmo tempo, estar com ela e abandoná-la no seu labirinto de contradições.

Às quatro horas e cinquenta e dois minutos, ela se virou de costas e levantou o braço direito sobre a cabeça. Abriu um pouco a boca, murmurou algo ininteligível e molhou os lábios com a língua.

Vou deixar você hoje”, eu falei.

Depois, ela não se mexeu mais e percebi que seus olhos também se acalmaram. De repente, ficou estranhamente quieta. Por um momento, achei que pudesse ter escutado o que eu disse, mas ela não me ouvia, sequer quando estava acordada. Escutava apenas o que lhe interessava. Fiquei acompanhando as idas e vindas do seu peito, no ritmo tranquilo da sua respiração, enquanto cogitava o que lhe diria quando acordasse, como faria para deixá-la e, até mesmo, quais seriam suas palavras em reação às minhas.

Ela dormia, sonhava ou não, e eu criava discussões imaginárias dentro de mim.

Às cinco horas, pontual como ela nunca foi, acordou e me olhou. Esfregou os olhos, se espreguiçou, me perguntou levemente intrigada se eu já tinha acordado e, sem esperar a resposta, me pediu, de um jeito doce, todo próprio:

Fica comigo hoje, o dia inteiro?” 
 
Esqueci minhas resoluções insones. Meus debates silenciosos.

Sorri.

E, simplesmente, decidi ficar.

(conto escrito para um desenho de Eduardo Filipe (Sama), para o blog Caneta, Lente e Pincel (postado em 25/02/2011)