sexta-feira, 11 de março de 2011

Um conto para ela...


... pois naquela manhã, fez exatamente o que costumava fazer todos os dias. Bebeu com pressa um café quente e forte, depois de tomar banho e lavar os cabelos embaraçados pelos sonhos distraídos da noite anterior. Deixou dois dedos de café na xícara roxa, fez um carinho descuidado no cachorro, e disse algo como:

Precisamos visitar sua irmã qualquer dia desses”,

Escovou os dentes durante seis minutos, vestiu uma meia-calça preta, um vestido preto e um casaco preto e ele, enquanto observava aquela agitação matinal, chegou a pensar que preferia quando ela usava tons claros como, por exemplo, o branco ou o bege. Mas ela gostava de usar preto e, ao sair, deu-lhe um beijo ligeiro enquanto ele lia o jornal daquela sexta-feira treze.

Ele não sabe o que aconteceu durante aquele dia porque só falou com ela uma vez, às 13 horas e 13 minutos, quando telefonou durante seu horário de almoço, perguntando se ela levara o carro à oficina. Mas, na verdade, não era essa a pergunta que ele queria ter feito. Ela respondeu que não, que precisaria do carro no dia seguinte, mas que, depois, ela própria o levaria ao mecânico. Ele disse que tudo bem e desligaram, pensando que se veriam dali a algumas horas.

Era sexta-feira treze e começou a chover torrencialmente, depois de semanas de um calor insuportável.

Por mais que tentasse esquecer, ele sempre se lembraria desses pequenos detalhes.

Quando, à noite, ela chegou em casa, ele estava sentado numa bergères anos 40 de cor azul escura que haviam comprado num leilão no flamengo, enquanto ouvia um disco do Paul Simon, bebia um copo de gin tônica e lia uma revista semanal. Numa outra noite qualquer, ela acharia graça da mistura dos elementos temporais daquela cena, mas isso não lhe passou pela cabeça naquele instante.

Ela colocou a bolsa na mesa de centro e sentou-se numa banqueta à sua frente. Bebeu um gole do gin tônica e disse como se tivesse ensaiado aquela frase durante a volta para casa:

Vou embora. Vou fazer minha mala.”

Ele ficou mudo. E perguntou apenas:

Por quê?”

Ao que ela respondeu que não havia uma razão.

Não há uma razão”, ela disse e enquanto o silêncio dele perdurava. Nessa breve frase, ele via centenas de razões possíveis para aquela atitude.

Talvez a falta de talento dele para a mecânica que a obrigava a levar o carro à oficina sempre que precisavam; talvez a rotina tão desejada por alguns e tão temida por outros; talvez o medo de chegar em casa e ele não estar sentado na poltrona anos 40 que compraram num leilão no flamengo; talvez a vontade de ter o filho que ele não queria; ou uma paixão antiga que havia voltado; porventura o silêncio que ela procurava e ele lhe dava agora, pelo motivo errado, por não saber o que dizer; ou o café que era muito forte; as manchetes violentas do jornal que ele comprava; ou a falta de leituras mais edificantes; quem sabe o pragmatismo do cotidiano; quem sabe a ideologia perdida há anos, muitos anos; talvez fosse tudo isso. Um acúmulo de fatores ao longo do tempo.

Contudo, o motivo perde importância diante do fato inequívoco de que ela estava indo embora.

Olhou para ele, sentado na poltrona azul, e nem imaginou que ele sabia.

Ele sabia que podia pensar o que quisesse. Pois não era nada disso.

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