quinta-feira, 3 de março de 2011

Valentina e o outro


Esta noite, Valentina se despiu para um outro homem cujo nome não sei. Soltou seu cabelo castanho escuro, sempre preso num rabo de cavalo, sentou-se sobre esse homem e o beijou profunda e longamente. Fazia três meses que ela não dormia com ninguém. Assim como eu. Foi no dia 20 de fevereiro que ela me disse, resumidamente, que havia se cansado de mim, das minhas preocupações, das minhas manias. Disse que deveríamos buscar cada um o seu caminho, que éramos muito diferentes, mas, ainda assim, que poderíamos ser amigos, bons amigos, um dia quem sabe.

Um dia, quem sabe, eu me esqueço dela de vez. E seu nome não me causará mais tremor algum. Nem qualquer desejo.

Mas hoje, agora, ainda posso sentir cada curva de seu corpo, todas as suas texturas, cheiros e gostos, sem esquecer um só detalhe. Não me esqueço das suas brotoejas na nuca, que a forçavam a usar os cabelos presos quase todo o tempo. Não me esqueço das manchas de sol nas costas, dos ossos salientes dos joelhos e dos cotovelos, do calo no dedo anular da mão direita, da cicatriz na perna esquerda, das veias dos seus pés quando voltavam doloridos das aulas de balé.

Não me esqueço do seu sorriso desconfiado quando me escutava falar. Não me esqueço das suas gargalhadas enquanto me fazia cócegas. Não me esqueço dos seus pelos arrepiados quando eu falava coisas doces ao seu ouvido. Não me esqueço da textura da palma da sua mão acariciando meu rosto ao acordar. Não me esqueço das suas lágrimas quando se comovia com um filme ou um livro qualquer. Não esqueço que as coisas começaram a ter um fim quando tudo mais a comovia, exceto eu.

Nesta noite, eu estava lendo um livro de Borges quando me veio essa sensação. Sobreveio o medo de nunca mais tocá-la, de esquecer sua voz se por acaso um dia ela me telefonar, de não ouvir ideias novas da sua boca, de não saber se seus sonhos mudaram ou se seus gostos continuam os mesmos. Sobreveio o medo de descobrir que apenas ela, e mais ninguém, conheceria tão bem os meus sonhos, os meus gostos, as minhas ideias, a minha voz.

Neste momento então, eu percebi que ela estava com outro homem. Que seu corpo nunca esteve tão distante de mim, que, de fato, minha identidade jazia resumida definitivamente na expressão “ex”.

Era madrugada, e, enquanto eu tomava um conhaque, Valentina bebia um copo de vinho. Enquanto eu tremia de medo, saudade e frio, Valentina tirava sua roupa, tremendo de excitação e desejo. Enquanto eu tentava ler Borges, Valentina beijava um outro homem. Enquanto eu pensava nela, Valentina me esquecia.

E essa noite foi tão perturbadora que senti que estávamos separados não há três meses apenas, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos.

Acendi um cigarro, próximo à janela, enquanto esperava amanhecer. Valentina, perto dali, olhava o mesmo céu, deixando o outro adormecer em sua cama.

Neste exato e breve instante, eu soube que, por alguma razão, ela também pensava em mim.

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