domingo, 18 de setembro de 2011

Alice e Camila


As coisas não acontecem como esperamos e Alice assinou os papéis da separação. Tirou o restante do dia de folga, pensou no que faria, andou pelo centro da cidade, comprou um perfume, um sapato e meias-calças, ligou para Camila, se encontraram e saíram juntas para beber. Camila trabalhava numa galeria de arte, tocava saxofone e piano, tinha um blog onde escrevia diariamente impressões sobre arte e fotografia, e, nas horas vagas, saía com Bruno, um amigo, só um amigo, como sempre repetia para Alice.

Já Alice não estava saindo com ninguém. Tentava pôr em ordem sua vida, alugou um pequeno apartamento em Copacabana, trancou o mestrado em literatura portuguesa e fez uma lista de coisas que precisava comprar para equipar sua nova vida de solteira.

Saca-rolhas, ela escreveu, em primeiro lugar.

Camila riu e disse que ela não devia ficar se embebedando sozinha em casa, que, pelo menos, a chamasse pra se embebedar também, disse ainda que já era hora de dar uma chance para alguém que lhe parecesse mais interessante, que seria difícil mesmo recomeçar, mas que era necessário ultrapassar esse obstáculo.

E assim aconteceu. Alice começou a sair com Gustavo, trinta e oito anos, editor do caderno de literatura de um grande jornal, dois filhos gêmeos de um casamento desfeito, problemas com ex-mulher, pensão, finais de semana em parques de diversões e almoços de família. Não muito tempo depois, Alice conheceu Rafael: quarenta anos, solteiro, sem filhos, professor de alemão, viajou pra Europa e decidiu lá ficar, correios eletrônicos durante algumas semanas, e depois, Alice conheceu Luís. Depois de Luís, Alice conheceu um arqueólogo, dois advogados, e um veterinário enquanto Camila continuava saindo esporadicamente com Bruno, que era um amigo, apenas um amigo, como ainda repetia para Alice.

Numa certa noite de agosto, era sexta-feira e chovia um pouco, Alice e Camila tinham desistido de ir a uma festa no Leblon, e ficaram bebendo vinho e vendo um filme do Bertolucci no DVD quando perceberam que gostavam tanto uma da outra que procurar alguém pra compartilhar aqueles momentos passou a ter cada vez menos importância. Num impulso, Camila deu um beijo em Alice. E Alice sentiu uma inquietação tão grande que apertou com força a mão de Camila. E as duas se beijaram novamente, enquanto, na tela de 29 polegadas da TV, Lyv Tyler, sentada nua numa banheira, escrevia em pedaços de papel: “I hope you’ll come and rattle me”.

Meses depois, Alice e Camila foram morar juntas num apartamento de dois quartos em Laranjeiras. Alice foi promovida e Camila fez sua primeira exposição de fotos na galeria onde trabalha. No ano seguinte, adotaram um menino de três anos chamado Francisco. E enquanto Camila tocava melodias de Chopin ao piano, Alice lia livros sobre como educar meninos.

Bruno – aquele que era “só-um-amigo” – agora é padrinho de Francisco e, durante essa história toda, acabou conhecendo Mariana, a advogada que acompanhou a adoção do pequeno menino. Bruno e Mariana hoje são bons amigos que, eventualmente, saem juntos.

E, justamente porque as coisas não acontecem como esperamos, Alice, Camila e Francisco estão vivendo muito felizes, até hoje.

Ah, e Bruno e Mariana também. Mas são apenas amigos, claro.


(publicado no Caneta, Lente e Pincel em 28/06/2010, com linda imagem de Fernanda Franco, em rodada invertida, inspirada no texto)

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