quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Querida Vanessa


Juliana tomou o grande embrulho vermelho em suas mãos com paixão incontida, tentando adivinhar qual seria aquele primeiro presente dele para ela.
“Um livro”, ela sugeriu, “não... é muito grande. São vários livros!”, com tom de extraordinária felicidade.
“Abre”, João tentava esconder a impaciência de saber se o presente agradaria ou não.
Ela o desembrulhou como a um bebê, cada dobra um pensamento deliciosamente constante de descoberta do outro, de se perceber naquilo que ele pensa que ela gostaria de ter, naquilo que a faria admirar-se de como ele a conhecia. A cada momento uma nova pista: primeiro a capa – dura com sobrecapa bege – depois o nome da editora na lombada – Harcourt Brace Jovanovich.

Contam outras histórias

Em 1/12/1984, Rita chegou no sobrado em Laranjeiras em que cresceu e abraçou seu pai e sua irmã, trazendo em sua bagagem alguns livros, discos, cartas e saudades imensas. O pai tentava esconder os olhos emocionados com o pragmatismo habitual, perguntando sobre a viagem ou por que não telefonou para que a buscassem no aeroporto. A irmã não soltava sua mão, suando saudades e amores em cada aperto. Vanessa, a amiga, entrou esbaforida em poucos minutos, correndo pela casa, abraços quentes de tardes de verão. Comeu doces feitos pela irmã, leu os artigos escritos pelo pai, viu as novas fotos tiradas pela amiga, distribuiu carinhos e refrescou o calor com copos de suco de abacaxi. Contou novidades não tão frescas assim, pois já as havia adiantado em cartas frequentes, mostrou fotos e descreveu os lugares mais fantásticos que viu.
“Primeira fotografia da sua volta”, Vanessa disse, “o entardecer em Laranjeiras é mais bonito com você aqui.”
Contou casos e lembranças até o anoitecer e as luzes da rua se acenderem e apagarem uma a uma.
“Primeiro presente da minha volta”, Rita disse e tirou um pacote de livros para a amiga, que abriu o embrulho com surpresa e alegria.
“As cartas de Virginia Woolf!”

e trazem uma dedicatória

“Querida Vanessa, eu havia acabado de ler uma carta sua, e pensava na resposta quando entrei numa livraria aqui em NY e me deparei com esses volumes para presenteá-la. Estava indo para a aula, nuvens trazendo gotículas de chuva acompanhavam um sol ameno de inverno e milhares de cores indefinidas atravessavam os prédios de tons cinza os mais variados. Lembra-se das tardes que passávamos juntas depois do curso de inglês? Faltam duas semanas para voltar, e o frio parece querer despejar todos os cariocas da cidade. Um frio mais gelado porque faltam suas risadas e nossas conversas. Como são estranhas algumas sensações de espaço e distância. Encontrei esses livros e senti você presente aqui, como se andando um quarteirão pudesse interfonar pra você. A cada dia aumentam as descobertas nessa cidade e, com elas, a certeza de que não preciso de mais do que já tenho no Rio. Com amor, Rita.”

Uma nova anotação ao lado do borrão onde antes havia um preço escrito a lápis:

“Para você, Juliana, meu amor, uma dedicatória alheia e as inúmeras histórias aqui contidas. Feliz Natal! João.”

E vários finais

No ano de 2004, Vanessa se jogou da janela do décimo andar de um prédio no Largo do Machado. Juliana e João haviam acabado de se conhecer, apresentados por um amigo que trabalhava num bar em Copacabana. Cinco dos seis volumes que compilavam as cartas de Virginia Woolf ficaram adormecidos na estante da casa da mãe de Vanessa, até que ela decidiu vendê-los para um sebo a tempo de João encontrar o presente de Natal para sua namorada.
E na mesma noite em que João escreve uma nova dedicatória a Juliana, Rita relê um volume desgarrado da compilação de cartas de VW, lembrando de um certo dia quente há vinte anos.
“Please write an account of your entire day from dawn to sunset.”

(este conto foi publicado na Revista Outros Baratos no inverno de 2006 sob o título Velhas Cartas)

Um comentário:

  1. Nossa, que conto legal!!! Caramba, antigo!!! Ah, vc seguiu meu conselho de pegar os contos guardados, e devem ter outros, muitos outros! Adorei! Interessantíssimo!!!

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