sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Verdades sobre a arte


Uma verdade de Louise Bourgeois.

O abandono de Elisa

Elisa senta-se e desata a dizer coisas absurdas como se triviais fossem, assim, com a naturalidade absoluta de quem não sente culpa de nada. Às vezes parece se impor sem qualquer delicadeza, seu corpo intenso oprimindo minha necessidade de existência. Eu preciso apenas existir sem que ela me defina. Quando percebe que me incomoda, sorri e me afronta dizendo que sentir culpa é tentar se santificar, afirmativa com a qual me identifico de imediato. Você quer ser santo, ela me diz, os olhos arregalados e fixados em mim, vidrados pela possibilidade do meu iminente aborrecimento.
Tive um dia febril, eu digo, numa tentativa de torná-la mais dócil. Era quase uma súplica, o que, na verdade, era o que ela queria ouvir. Ela responde que todos os seus dias são febris e tenta me provocar. Ela tem curvas no corpo como na alma, eu penso, tentando traçar uma linha entre nossas sensações. Visualizo uma linha oblíqua o tempo inteiro. Elisa ri quando eu menos espero, chora em manhãs ensolaradas, desaparece por dias e me diz, sem qualquer sutileza, que vai me deixar em pouco tempo.
Mas antes mesmo que eu me aterrorize com sua ausência, ela volta, senta-se à minha janela e desata a contar os sonhos desconexos das noites anteriores. Às vezes sussurra, como se não quisesse ouvir sua própria voz. Sei que tem medos e sei que tem medo de mim. Desconfio, quando ela faz seus prognósticos, que não quer me dar escolhas e, em razão disso, me diz o que farei. Quando eu digo que ela não é razoável, ela me responde que não entendo sua lógica. Quando eu me esforço para entendê-la, ela sente tédio e diz vai embora. Sinto que ela poderia ver o mundo acabar, continuar impassível, e desabar em choro apenas no dia seguinte, como se ainda pudesse existir entre os destroços. É quando ela percebe que não há mérito algum em se impor sobre os restos da humanidade. Chega a ficar triste, mas é devastação o que ela deseja causar e seu prazer é desaparecer deixando seus rastros no caminho.
Percebi isso no dia em que ela me disse que não conseguiria viver sem mim.
Agora sei que ela não virá amanhã.

(conto escrito para o blog Caneta, Lente e Pincel, inspirado em imagem de Maria Matina, publicado em 11/10/2011)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Maman



... e voltamos à origem, sem a necessidade de explicações.
(Maman, de Louise Bourgeois, exposta no Mam, num domingo ensolarado de setembro)