sábado, 24 de dezembro de 2011

Um Natal em Bloomsbury


Era um inverno instável. Era um fim de ano frio, mas instável. Meu primeiro Natal fora do Brasil, longe da minha família, dos meus amigos, das minhas raízes sempre tão seguras e particularmente minhas. Eu estava ainda perdida em Londres, há alguns meses, terminando meu mestrado em literatura inglesa, envolta nos livros da Virginia Woolf e sobre Virginia Woolf, aprofundando uma pesquisa que me parecia interminável. Possivelmente porque eu, na verdade, desejava que aquilo tudo durasse ainda muito tempo. Lia e relia biografias, diários, cartas, romances, ensaios e estudos os mais diversos. Quando tinha tempo, eu caminhava pelas ruas de Londres, e pelas mesmas ruas onde ela dizia que a beleza não era percebida e que seria melhor não caminhar de braço dado nem tampouco ser muito alto. Eu não tinha ninguém para dar o braço e me satisfazia em andar sozinha, observando os ingleses altos, magros, e também os baixos, de rostos finos e narizes longos, ou rostos triangulares envoltos em chapéus e cachecois. Figuras misteriosas! Todos, sem exceção, para mim ainda mais estrangeiros nessa época de Natal!
Na tarde do dia 24 de dezembro, eu estava lendo uma revista científica num banco na Tavistock Square, enquanto esperava uma amiga, com quem eu passaria a noite de natal. Nesse momento, uma mulher, de idade indefinida, mas entre seus 35 e 45 se sentou ao meu lado, interrompendo minha leitura.
Kepler 22b é sem dúvida um nome muito pouco criativo para um planeta tão notável.”
Ela usava uma saia comprida, botas escuras e um casaco azul também comprido, um chapéu de abas largas com um pequeno adorno azul marinho que encobria parte de seu rosto fino, tornando-o um pouco misterioso e um pouco triste.
Sim, de fato”, concordei, “Se houver vida inteligente nesse planeta, certamente seu nome deve ser mais interessante.”
Ela sorriu.
Talvez cada um o nomeie como queira. Seria bastante democrático.”
Fechei a revista e recostei no banco.
Não sei como o chamaria se eu pudesse escolher. Talvez Bloomsbury.”
Ah, nomes...”, ela continuou, “definem tanto e tão pouco o que somos. Por que queremos tantas definições? ”
Estendi minha mão e lhe retruquei:
A propósito, me chamo Vanessa.”
Ela sorriu novamente, de modo triste e enigmático.
Como minha irmã. Eu me chamo Virginia.”
Não pude deixar de associar.
Sua irmã se chama Vanessa? Como Virginia Woolf e Vanessa Bell?”
Sim, exatamente”, ela respondeu o mesmo sorriso se formando em seus lábios finos. “Sou Virginia Woolf”, ela continuou enquanto ajeitava, elegantemente, suas luvas vermelhas.
No instante imediatamente seguinte a essa frase, por incrível que pareça, pensei em minha amiga. Por que ela não voltava para me ajudar naquela situação inusitada? Certamente a mulher devia sofrer de algum transtorno de personalidade, mas ao mesmo tempo, pensei por que logo pensar que era Virginia Woolf? Logo comigo?
Quer caminhar um pouco?”, ela perguntou, “Sei que você deve estar um pouco assombrada. Isso não costuma acontecer muito. Mas eu gosto quando alguém me reconhece.”
Eu estava tremendo, um misto de frio, ansiedade e nervosismo. Como assim quando alguém a reconhece? E perguntei:
Como?”
Sim, não consigo conversar com muitas pessoas, infelizmente. Acontece alguma coisa inexplicável nessas horas. Com você achei que ia conseguir, por isso puxei o assunto. Vamos caminhar um pouco? Gostaria de passar em frente ao hotel Tavistock.”
Mas como devo acreditar que você é Virginia Woolf em pessoa?”
Ela deu de ombros, enquanto se levantava.
Ah, não precisa acreditar. Não importa. De qualquer forma é bom conversar com você.”
Tentei organizar meus pensamentos, de modo a buscar um pouco de equilíbrio para aquela situação. Pensei que, se de fato eu estivesse vendo um fantasma, que pudesse me dar respostas, essa seria uma experiência incrível. De outro lado, era no mínimo inusitado encontrar alguém com um transtorno psiquiátrico que lhe fizesse pensar que era a melhor escritora de todos os tempos. Quem seria essa pessoa? Fiquei em silêncio por alguns instantes quando meu celular começou a tocar insistentemente. Era minha amiga.
Tenho muitas perguntas a lhe fazer, me espera”, eu disse enquanto procurava o celular na bolsa.
Atendi minha amiga no celular, e tentei lhe explicar de modo afobado e impaciente a situação em que me encontrava. Evidentemente ela não conseguia entender uma palavra. De alguma forma, eu precisava continuar ali, ainda que a mulher fosse completamente louca, eu precisava conhecer tudo que envolvia o nome de Virginia Woolf. Quando desliguei, ela tinha sumido. Desapareceu completamente. Andei o parque inteiro, fui até o Hotel Tavistock, mesmo endereço onde ficava a casa que os Woolf's viveram e onde ela escreveu a maioria dos seus romances. Andei, corri, observando todas as mulheres de chapéu e casaco azul, cada uma delas, uma estranha e obscura sensação de que ainda poderia encontrá-la novamente.
Desisti e horas depois, fui para a ceia de Natal na casa de minha amiga. Contei a história, ela desatou a rir e não acreditou, obviamente. Achou que era um delírio londrino de fim de ano.
Isso é pressão para acabar sua tese, isso sim.”
No dia seguinte, voltei ao mesmo lugar e encontrei uma caixa de madeira com meu nome gravado. Abri sem muita dificuldade e vi um papel rasgado onde pude ler:
I hope we may meet on Tuesday. V.W.”
Sorri e uma alegria misteriosamente intensa me tomou por completo. Certamente, na terça-feira, eu estaria ali novamente. À espera de Virginia Woolf.

(escrito para o clube da leitura do dia 20/12/2012)