sábado, 24 de novembro de 2012

Caminhos

Num relance vejo em seus olhos castanhos todas as hipóteses impossíveis de futuro. Tardes com cervejas, lágrimas enlouquecidas, sorrisos silenciosos, lanchonete e ketchup, fome e vontade de comer, aulas de francês e saxofone, letras descoloridas e livros gastos pelo tempo, as urgências de partidas iminentes. Tudo tão simples que se complica por si só. Por um instante, vejo, por cima de seus ombros, as janelas me encarando do outro lado da rua com imagens televisivas que me hipnotizam com violência. Vejo gritos invisíveis. Vejo risos nos quais enraízo sensações melódicas por minha própria conta. Num momento, vejo seu reflexo no vidro e penso nas possibilidades de futuro que inventei. E isso me desespera tanto que não quero prestar atenção em você nunca mais. Penso nisso com tanta intensidade que acho que você consegue perceber. E vejo como todas as minhas forças estão concentradas na vontade de ouvir sua voz. Você sorri. Todos os caminhos levam a Roma, você me diz e eu ouço, cansado das suas divergências, exausto das suas partidas planejadas, das suas voltas inesperadas. Exausto de você e do seu abandono. Ao final, vejo em sua sombra essa única e real possibilidade de futuro.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Medos - n.º 03

"Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."
Clarice Lispector - Um sopro de vida.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Zugzwang


    Quase sempre a luz da manhã invade as aberturas tortas das persianas e a faz acordar da noite mal dormida antes que o som do despertador seja ouvido. Abre os olhos, consciente de que estava sonhando, enquanto percebe que seu corpo não descansou das rotinas enfadonhas do dia anterior. Não relaxa. Nunca descansa. O rosto enfrenta as notícias diárias e a cabeça ainda sonha com igrejas, soldados e pessoas invadindo casas. Sempre evitou cortinas nas janelas. Preferia as persianas tortas, obstáculos frágeis e devassáveis de outras vidas. Por que gostava tanto de ser testemunha das rotinas alheias, emolduradas nas janelas dos apartamentos da frente, das crianças desconhecidas chorando por não compreenderem o que estão fazendo, das mulheres imersas na contraluz lendo romances de qualidade duvidosa, dos casais discutindo por causa da falta ou do excesso de amor? Nos tempos atuais, a intimidade derrota qualquer jura explícita que se finge eterna. Melhor apenas jurar pra si mesma, aí sim, com a convicção que falta nas promessas impensadas. Acordou com a sensação de fuga do sonho invasivo e primeiro pensou em voltar a dormir e solucionar, no inconsciente, todos os temores que lhe afligiam. Depois decidiu levantar-se, levantar-se e mover-se e derrotar seus medos um a um, num movimento lento e estratégico, como quem quer chegar ao fim com uma sensação peculiar, inédita. Durante o dia listou todos aqueles medos, todos os dissabores, todas as mágoas, todas as frases não ditas. Daí, caiu e chorou. Não conseguia ir pra frente. Não se pode ganhar sempre, pensou em voltar para os sonhos inacabados, com igrejas, soldados e pessoas invadindo casas. Mas decidiu levantar-se, e de novo, fazer um movimento planejado. Mentiu pra si mesma, passou maquiagem no rosto e manteve um sorriso arraigado, mas fingido. Até quando vão pensar que está tudo bem? Até quando pensarão que ela é forte? Depois de outro movimento e outro movimento, parou e novamente pensou em igrejas e em vizinhos vivendo vidas alheias. Desejou perder voluntariamente, suicidar-se com derrotas consecutivas. No entanto, era obrigada a, bem devagar, movimentar-se para seu fim. Voltou pra casa naquele dia com uma vertigem propulsora. Enquanto o chão fugia de seus pés, estava sozinha de novo. Ninguém suportaria tamanha areia movediça. No meio disso tudo, se via protegendo alguém fraco, inapto pra enfrentar qualquer pequena covardia do cotidiano. Como desenvolver a força se via apenas um penhasco na sua frente? Nesse intervalo, fez dois movimentos bruscos. Deu um telefonema e fez as malas. No dia seguinte, partiria, fugiria de seus medos como quem foge dos sonhos, ignorando que eles a seguem. Indefinidamente a seguem. E para sempre a seguem. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

I’ve got a feeling we’re not in Kansas anymore #2

Eu continuo na linha do trem, mas muito, muito, longe de casa.
Quem teria a chave?, ela pergunta.
Não consigo responder, apesar de ter a solução.

Medos - n. 02

Lembrando que "estou vivendo de hora em hora, com muito temor. Um dia me safarei - aos poucos me safarei, começarei um safari". (Ana Cristina César).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vislumbre


Por um instante acho possível compreender-me um pouco. Logo em seguida, me perco, me desconheço novamente. Perco meus nortes indispensáveis, minhas seguranças inquestionáveis. De novo aproprio-me deste silêncio que retorna com o que é desconhecido. Um silêncio atemporal, nostálgico, impróprio, paradoxal. Um silêncio tomado de pensamentos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Impermanência



Pergunto-me se existe um instante que pode libertar todas as coisas, que pode mudar o trânsito deste dia, que pode me desviar de qualquer linha reta que me apareça pelo caminho. Pergunto-me sobre as coisas que mudam, mudam tão rápido, transitam entre o imaginário e o impossível. Pergunto-me sobre os erros. Sim, só os erros podem me conduzir a uma eventual (afinal), felicidade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os livros na estante


Os livros na estante já não tem mais tanta importância, a voz dele dizia na vitrola, e Alice discordava, titubeante, concentrada em si mesma, salvaguardando sua própria existência, obrigada a se manter de algum jeito compensada, razoável.
Por trinta segundos se faz um silêncio ensurdecedor e Alice pensa que será assim pra sempre. Sozinha, razoável, compensada, buscando qualquer acolhimento na sala repleta de objetos, inevitavelmente pensa em catalogar seus livros na estante, uma vontade interminável, resoluta.
Ou, diferentemente, sabe que isso é uma fuga. E foge de todas as sensações de perda de identidade, concretizando-se apenas em silêncio, silêncio e solidão.
Alice levanta e, em quarenta minutos, conta 735 livros em quatro estantes.

Cortázar

"As muitas maneiras de combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ensinar-se muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, golpe de vista e dedos seguros. Não se trata de espreitar a mentira como qualquer repórter, e apanhar o estúpido perfil da grande personagem que sai do n.º 10 de Downing Street, mas, de qualquer modo, quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder esse brusco e delicioso reflexo de um raio de sol numa velha pedra, ou a corrida com as tranças ao vento de uma garota que volta com um pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo opera sempre com uma alteração da sua maneira pessoal de ver o mundo para outra que a câmara lhe impõe insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), mas não o desconfiava, sabedor de que lhe bastava sair sem a Contax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma nem 1/250. Agora mesmo (que palavra, agora que estúpida mentira!) podia ficar sentado no muro sobre o rio, vendo passar as barcaças negras e vermelhas, sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, deixando-me simplesmente ir no deixar-se ir das coisas, correndo imóvel com o tempo. E o vento já não soprava. (...)"

Julio Cortázar
No conto "As babas do diabo", em Armas secretas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Engano

Chico é aquele sujeito que todo mundo gostaria de ter como amigo e que nunca aprendeu a ser pai. Em suma, ele:

1) escuta o que você fala, com calma, e ri quando você menos espera, tornando quase tudo muito simples, sem banalizar qualquer questão por mais boba que seja (você então se pergunta por que se preocupou tanto com isso);

2) tem pequenos defeitos como: inconstância;

3) tem grandes defeitos como: intolerância;

4) tem defeitos medianos como: mau-humor;

5) às vezes não atende o telefone nem retorna as ligações e manda algumas mensagens estranhas para o celular;

6) às vezes se arrepende de algo que disse;

7) quase nunca sabe o que deve fazer, como, por exemplo, como fazer para conhecer a filha de vinte anos que mora em Juiz de Fora.

A breve história começou no dia 14 de fevereiro, às 9h57min, quando, ele, vestindo uma calça de moletom cinza, atendeu ao telefone e ouviu a seguinte frase:

- É da casa do Senhor Francisco?

E ele ficou mudo porque quando ouviu sua voz soube exatamente quem era. Não foi por causa do tom formal, não foi por causa do leve tremor diagnosticado na exteriorização do seu nome, não foi por causa do sotaque mineiro reconhecido de imediato.

Foi por causa de uma cumplicidade estranha e misteriosa (facilmente identificável em pessoas apaixonadas, por exemplo).

Assim são as coisas da vida que não têm explicação, como a paixão e o medo. Simplesmente se sente e pronto. No caso dele, era medo o que sentia.

- Alô? - ela continuou, serenamente, por duas ou três vezes e depois desligou o telefone, fazendo com que ele se sentisse tão medíocre que sua vontade naquele instante era voltar pra cama e dormir.

Sentiu uma espécie de sono incontrolável que o impedia de pensar em qualquer outra coisa. Assim, em nada pensou durante cerca de vinte segundos. Depois, se perguntou por que fizera aquilo. Por que simplesmente não havia respondido, não havia perguntado quem era, não havia dito “sim, sou eu” e escutado o que ela tinha a dizer.

E esperou durante alguns minutos que o telefone tocasse novamente. Durante aquele dia, ele pensou nela o tempo inteiro, enquanto fazia pareceres, enviava e-mails, ou atendia números desconhecidos no celular – no fundo, querendo de verdade que fosse ela – e se decepcionando logo depois, ao descobrir que ora era o dentista, ora um cliente entediante, ora a companhia telefônica para lhe oferecer algum serviço indesejado.

E, por duas vezes, foi apenas engano. Duas vezes num mesmo dia, de modo que é necessário discorrer brevemente sobre o engano.

Equívoco originado da casualidade. Descuido. Intromissão involuntária e, às vezes, caótica na vida de outra pessoa. Entrecruzamento de vidas que absolutamente não possuem um elo de ligação em comum. Às vezes um único algarismo diferente num conjunto de oito que formam o número de telefone faz com que alguém fale com outra pessoa que jamais falaria em toda sua vida. Que jamais encontraria. É gênero da espécie acidente. Um minuto a mais ou a menos e duas pessoas se esbarram no supermercado, se olham, pedem desculpas e sorriem, observam rapidamente o carrinho de compras uma da outra, identificam gostos em comum, se encontram na fila novamente, descobrem que são vizinhos, marcam um encontro, namoram, brigam, tem filhos ou não, deixam de conhecer outras pessoas. Ou não. E então se separam. Ou não. Tudo na vida dessas pessoas passa a depender desse tênue fio que se cria entre elas. Outras vezes, é uma reunião de trabalho que se prolonga e faz com que ele (ou ela) fique cansado e não vá a uma festa mais à noite, onde conheceria outra pessoa, de modo que, realmente, não conhece essa pessoa que, por sua vez, fica meses saindo com alguém nada a ver. Às vezes, o que pode parecer, à primeira vista, um engano completo, se mostra, depois, uma das poucas coisas realmente críveis e completas da vida.

Coisas que, como algumas outras, fazem a vida de fato valer a pena.

E se equivalem a ouvir um disco da Nina Simone, ter um amigo em quem confiar ou ler Paul Auster. Ou ouvir a voz de uma filha desconhecida.

No fim do dia, atendeu ao telefone no quinto toque estridente do aparelho:

- É da casa do senhor Francisco?

- Sim, ele disse, cúmplice da mesma voz que ouvira naquela manhã.

Foram segundos permeados de um vazio perturbador em que ele esperou escutar apenas a palavra “pai”. Ouviu durante trinta segundos o que a voz tremida com sotaque mineiro falou e respondeu:

- Desculpe, deve ter sido algum engano, não sou o Francisco que você procura.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Casulo

Tornou a observar as mãos brancas de Alice, descansadas sobre o lençol de seda vermelha. Com cuidado, ele ajeitou o braço esquerdo dela, aproximando-o do pescoço, simulando um gesto de recolhimento – seu ensimesmamento forçado, que parecia durar para sempre. Desembaraçou os cabelos castanhos escuros, penteando-os com seus dedos, por sobre o ombro direito dela, deixando à mostra a tatuagem de um coelho branco. Estava frio, mas ele não conseguia pensar nisso. Não tinha sensações térmicas, não sentia nem
angústia, tampouco desamparo. Não sentia sua falta, tudo ainda estava no lugar. Nada parecia acontecer no mundo durante aqueles minutos em que compartilhava o quarto avermelhado com ela. Tinha apenas uma única sensação.
Sentia que estava ferido. Agora tanto quanto Alice.
Com isso, deu-lhe um beijo na boca, cobriu com o lençol de seda vermelha seu corpo ainda quente, fechou os olhos castanhos dela, pegou a faca suja de sangue e foi embora.
Estava de luto.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tema de Frank

Quando a conheci, ela estava bebendo um Dry Martini e lendo um livro do Gregory Corso. Costumava aparecer às segundas, às vinte horas e trinta de cinco minutos. Pontual e exata como não costumava ser em sua vida. Sempre vestia preto e usava os cabelos presos num rabo de cavalo desalinhado. Sentava num banco junto ao balcão, pedia sua bebida e, calmamente, lia o jornal. Às vezes parava de ler e conversava um pouco com o barman. Depois, riam um pouco, ela pedia outro Dry Martini e olhava em volta. Um dia veio falar comigo, segurando firmemente seu copo meio cheio, meio vazio.

Eu estava pensando... - ela disse, indiferente como num filme francês - preciso esquecer algo que me aconteceu hoje, e estava aqui pensando que talvez você seja a companhia perfeita para isso.

Sentou-se à minha frente, respirou profundamente e bebeu dois goles de seu Dry Martini. Ela sabia. Eu já estava em suas mãos e mais cedo ou mais tarde teria que me abandonar. Sofria de um tédio incomum, anormal, sombrio.

O que aconteceu hoje que você quer esquecer?

Eu quero esquecer. Se você me perguntar, vou embora. Quero esquecer. Só preciso lembrar disso amanhã.

Lembrar de quê?

De que hoje consegui esquecer.

E o que eu posso fazer pra você esquecer?

***

No dia seguinte ela me acordou gritando. Gritou no meu ouvido, enlouquecida, como se estivesse cortando seu corpo com uma faca afiada, como se cortasse seu dedo indicador e o deixasse de lembrança para mim. Gritou durante minutos. Ou, pelo menos para mim pareciam eternos minutos, devastadores para os tímpanos e minhas relações com a vizinhança.

No meio de seus berros, ela gritava: “vamos grita comigo. Grita comigo, por favor. Grita agora.” E não sei como ou por que razão, aquilo foi uma ordem para mim. Gritei, de forma temerária, violenta. E num ímpeto, ela me calou, me dando um beijo fundo e repentino.

Agora escute o silêncio, ela disse. E me indagou com os olhos. Então?

Não estou ouvindo nada.

Nada?, ela disse.

Eu estou.

O quê?

O tema de Frank.

Que tema?

O seu tema.

***

Ela não tinha telefone, por isso eu precisava esperar suas ligações. Invariavelmente, elas vinham nos horários mais improváveis e, logo, o imprevisto passou a ser habitual. Eu esperava atender suas ligações no meio da noite, no meio da madrugada, às seis da manhã, quando eu conseguia dormir depois de tentar esquecê-la. Também ao meio-dia quando ela me perguntava onde eu estava e depois de ouvir que eu estava trabalhando, ela respondia com desprezo, ahnnn, é que quero ver você hoje à noite.

E eu aceitava, como aceitei tudo que vinha dela.

Preciso que hoje seja ontem de novo.

Como assim, garota?

Frank, preciso que hoje seja ontem de novo. Preciso disso agora, e preciso disso com você.

Tudo bem, vou pegar minha máquina do tempo.

Ela me apertou com força porque sabia ser violenta, me beijou de seu jeito próprio, quase gritante, e sussurrou:

Preciso que hoje seja ontem e preciso que você remova de mim essa vontade de ir embora daqui.

***

Durante alguns dias foi ontem, como ela queria. Foi um mesmo dia, repetidamente, dia após dia. Mas não consegui enganar o tempo e, assim, foi numa terça-feira de manhã que ela partiu. Na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda, na terça, na quarta, na quinta e em todos os dias seguintes fiquei esperando suas improváveis ligações. Dormi pouco, comi pouco, pensei pouco e só quis de volta as suas vontades enlouquecidas de gritar e de que todos os dias fossem um só novamente.

Um dia ouvi seus gritos. Procurei em dezenas de janelas iluminadas dos prédios à minha volta, calculando a direção daquele som. Gritei de volta, querendo que ela me escutasse. Depois, sobreveio o silêncio, sem sua boca violenta me beijando.

Invadindo o silêncio ouvi uma canção que dizia algo como: I promise when the sun comes up. I promise I’ll be true.

Não consegui mais dormir. Nem naquela noite, nem nas seguintes.

Esperando o sol nascer, esperando o dia de ontem de novo. Esperando por ela, que sempre foi o avesso do esquecimento.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fim

Fugi para Yucatán porque andava pensando no fim.
Se o meu fim coincidiria com o juízo final, com o fim do mundo, com o fim da sua vida ou da minha vida, com o fim desta história, com o fim das minhas lembranças, com o fim do sonho que tive esta noite ou, apenas, com o fim do dia de hoje. Tudo começou porque pensei que um dia tudo se acabaria.
O fim terá início quando, de repente, um planeta entrar em reta de colisão com a Terra e, nessa hora, vamos nos perder em cálculos intermináveis e nos agarrar a esta existência, vamos descobrir que fizemos muito e nunca nos demos conta do tamanho desse tanto, e perceber o quanto consideramos esse pequeno tanto que é apenas nosso. Quando o fim tiver início, desejaremos permanecer exatamente onde estamos, sem grandes mudanças, persistindo na entediante frustração dessa nossa rotina diária, num esforço final de sobrevivência e esperança.
Meu fim começou quando, depois de tantas previsões, me impediram de sonhar, e depois disso só me restou fugir. Às suas perguntas sobre os motivos da minha fuga, respondo apenas que eu queria voltar a ter meus sonhos desordenados e acabar com minha vigília intercalada com sonos profundos, antecipados e programados. Gentilmente, eu queria me permitir ver coisas que não existem, entrar em labirintos tortuosos, descobrir o que essas vozes tem a me dizer, enquanto tento manter minha clareza de espírito. Eu sei que na maioria das vezes me perco, e nessas horas, preciso de você. Sei que, para mim, é arriscado demais conhecer esses disfarces do meu inconsciente. Mas este é o risco que corro. Prometo compartilhar com você de novo os enigmas que me transtornam, pois sei que tais perturbações nos mantêm em contato. Eu queria algumas respostas, que não sejam prontas, nem fáceis, mas que nos entretenham até que venha o fim do mundo. Por isso, também, eu fugi. Mas me comunicarei com você, fique atenta. Vou escrever-lhe, contando meus novos sonhos e assim, quem sabe, possamos salvar ao menos uma parte do nosso mundo. Esta que ainda nos resta. Eu fugi, mas não fui embora. Porque, você sabe, são coisas diferentes. Fugi porque preciso da minha identidade de novo e só consigo resgatá-la por sonhos e devaneios. São meus sonhos que me salvam, não importa o que venha depois, se é o início ou o fim.
Se um dia tudo se acabar, que, ao menos, nós ainda tenhamos a capacidade de fechar os olhos e sonhar um pouco mais. E daí, começar a nossa história. 

(Escrito para o blog Caneta, Lente e Pincel, inspirado em imagem de Marcelo Damm, em 03/04/2012)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cenas em vermelho


Desafio: aprender a distinguir as cores, para aprender a distinguir a mim mesma. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Bliss



Quero uma percepção que revele algo mais que a superfície.

"Deus! O que vai acontecer agora?".

(Bliss - Katherine Mansfield)

Camuflagem


Disfarçam-se de si mesmos e talvez, um dia, consigam ver um ao outro.

(cenas de casamento - 3)

O palhaço e a trapezista

Era um palhaço. Podemos chamá-lo de Palhaço Energia, pois era assim que se apresentava, ou simplesmente de O Palhaço, pois era assim que se sentia. Não interessa seu nome verdadeiro, tampouco sua alcunha, interessa apenas que ele se apaixonou pela trapezista num dia de domingo, atribulado e arriscado como são todos os domingos, no instante em que ela girava numa corda indiana presa ao teto, formando círculos imperfeitos no ar. O palhaço, com sua maquiagem enfática, seu uniforme colorido, seus sapatos gigantes e sua triste alegria de sempre, sentou-se no chão, atrás da cortina, e, junto com a pequena plateia de uma cidadezinha do interior, deixou-se hipnotizar pelas incontáveis rotações e pelos movimentos circulares e repentinos do corpo da acrobata.

Depois desse domingo, o palhaço e a trapezista passaram juntos por quarenta e três cidades, conversaram durante noventa e cinco horas, emprestaram dinheiro um para o outro, tomaram café na estrada para aquecer o corpo. Um dia ele contou para a trapezista uma história sobre a origem dos palhaços. Outro dia ele fez uma lista de similitudes e diferenças basilares entre os dois ofícios.

“Veja como nós dois somos diferentes”, ele lhe disse, “O palhaço depende essencialmente do riso de outra pessoa. Só existe em função da plateia.”

“O trapezista também”, ela retrucou indignada. “Também dependemos de quem nos olha”.

“Não. Vocês podem apenas existir. Ainda que sem plateia, vocês subsistem lá no alto. É como se nada mais importasse. O palhaço, sem ter alguém que ria dele, não é nada. Se você quiser subir num trapézio agora e fazer malabarismos absolutamente sozinha, isso poderá fazer-lhe feliz. Você poderá ser uma trapezista sem plateia. No entanto, eu sou um pobre coitado que dependo da sua capacidade e da sua predisposição de rir das minhas palhaçadas.”

“Você está enganado”, ela sorriu, sem saber como contra-argumentar. “E por que você acha que simplesmente estar no trapézio me faria feliz?”

Ele não respondeu, mas não conseguir conceber que a trapezista, com seus olhos brilhantes e seu corpo voador, não pudesse ser feliz.

Dias depois montaram o circo na cidade de Formosa. Enquanto todos adormeciam, o palhaço, insone, vestindo uma calça jeans e uma camiseta marrom, caminhava pela arena do circo, cogitando sua própria predisposição em rir. Em seguida, notou a trapezista lá no alto, prestes a decolar num voo abandonado. Ele sentou-se atrás de uma coluna, próximo às arquibancadas e ficou por um tempo assistindo aquela performance solitária, enquanto ela desenhava no ar círculos livres e imprecisos. Foi quando o palhaço então percebeu que, não fosse por sua presença ali, a trapezista poderia apenas existir, sem precisar interagir com outra pessoa. Levantou-se e foi embora, deixando-a sozinha com uma sensação indefinível, que, talvez, fosse felicidade.

(escrito para o clube da leitura do dia 13/03/2012)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Volta Teresa

Volta e meia ele pensava em Teresa, que deu meia volta e partiu numa segunda-feira nublada de um outono imprevisível e nunca mais apareceu. Teresa, que sabia exatamente como se enfurnar em seus braços e mantê-los à sua volta, enroscando-se frágil e docemente, como se pudesse aconchegar o mundo em seu abraço. Teresa partiu e não deixou carta, nem bilhete, apenas algumas roupas velhas e um perfume de lembrança. Partiu e deixou um quadro incompleto de um gato azul, que o encarava de modo perturbador, e o fazia dar voltas na cama, procurando o sono perdido em recordações de Teresa. Depois que Teresa partiu usando um colar verde de três voltas e um vestido comprido estampado, ele pensava que, nessas voltas que o mundo dava, certamente a reencontraria, e ela o veria feliz, de novo inteiro, com outra mulher e talvez filhos e sacolas de compras na mão, voltando do cinema ou do Shopping Center. Teresa partiu enquanto ele pensava que ela saíra para dar uma volta ou comprar um pão fresco ou, quem sabe, tintas novas para pintar outros angustiantes gatos azuis ou vermelhos. Teresa partiu enquanto ele andava às voltas com uma fórmula matemática e, depois disso, ele passou dias a calcular probabilidades de voltar a encontrá-la em esquinas ou bares, cinemas ou teatros, ruas movimentadas ou vielas esquecidas. Depois que Teresa partiu, ele passou a beber todos os dias, a esperar todas as horas, a procurar nos rostos conhecidos todas as suas memórias, a buscar nos rostos desconhecidos qualquer sinal ou solução que a trouxesse de volta pra casa.
Numa dessas voltas da sorte, avistou Teresa entrando num ônibus circular. Tentou alcançá-la, o que foi absolutamente em vão. Pôde apenas sussurrar, no instante em que imaginou que ela também olhava pra ele:
- Volta Teresa.
Naquele momento, ludibriando todas as probabilidades, acreditou, com toda firmeza, que a teria de volta em seus braços.
(conto escrito para o Clube da Leitura do dia 31/01/2012)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fragmento



"A ideia de ficar com você pra sempre é o que mais me acolhe nesse momento." Sem saber ao certo de que maneira, os dois realmente se entenderam. E enfurnados numa sensação de quietude que beirava o absurdo, adormeceram logo depois desse instante primoroso.
(fragmento n.º 1)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Festa





Acordei com essa vontade intensa de festa. E como há dias não me sentia assim, achei-me estrangeira nesse desejo inconsequente de felicidade. Refaço planos adormecidos,  recrio sonhos suaves e desejos melódicos, creditando a eles essa vontade de conciliar o mundo à minha volta. Listo vontades como: ler katherine mansfield e virginia woolf e escutar mais beatles. Tolerar mais, sem esquecer da palavra 'não'. Ouvir mais, ponderando as palavras, os gestos e os silêncios - principalmente os silêncios. Falar mais, especialmente aquilo que é imprescindível e que, às vezes, se oculta na obviedade do dia-a-dia. E escrever. Escrever, todos os dias, sempre, incessantemente.
(ouvindo beatles - and your bird can sing).