sexta-feira, 23 de março de 2012

Cenas em vermelho


Desafio: aprender a distinguir as cores, para aprender a distinguir a mim mesma. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Bliss



Quero uma percepção que revele algo mais que a superfície.

"Deus! O que vai acontecer agora?".

(Bliss - Katherine Mansfield)

Camuflagem


Disfarçam-se de si mesmos e talvez, um dia, consigam ver um ao outro.

(cenas de casamento - 3)

O palhaço e a trapezista

Era um palhaço. Podemos chamá-lo de Palhaço Energia, pois era assim que se apresentava, ou simplesmente de O Palhaço, pois era assim que se sentia. Não interessa seu nome verdadeiro, tampouco sua alcunha, interessa apenas que ele se apaixonou pela trapezista num dia de domingo, atribulado e arriscado como são todos os domingos, no instante em que ela girava numa corda indiana presa ao teto, formando círculos imperfeitos no ar. O palhaço, com sua maquiagem enfática, seu uniforme colorido, seus sapatos gigantes e sua triste alegria de sempre, sentou-se no chão, atrás da cortina, e, junto com a pequena plateia de uma cidadezinha do interior, deixou-se hipnotizar pelas incontáveis rotações e pelos movimentos circulares e repentinos do corpo da acrobata.

Depois desse domingo, o palhaço e a trapezista passaram juntos por quarenta e três cidades, conversaram durante noventa e cinco horas, emprestaram dinheiro um para o outro, tomaram café na estrada para aquecer o corpo. Um dia ele contou para a trapezista uma história sobre a origem dos palhaços. Outro dia ele fez uma lista de similitudes e diferenças basilares entre os dois ofícios.

“Veja como nós dois somos diferentes”, ele lhe disse, “O palhaço depende essencialmente do riso de outra pessoa. Só existe em função da plateia.”

“O trapezista também”, ela retrucou indignada. “Também dependemos de quem nos olha”.

“Não. Vocês podem apenas existir. Ainda que sem plateia, vocês subsistem lá no alto. É como se nada mais importasse. O palhaço, sem ter alguém que ria dele, não é nada. Se você quiser subir num trapézio agora e fazer malabarismos absolutamente sozinha, isso poderá fazer-lhe feliz. Você poderá ser uma trapezista sem plateia. No entanto, eu sou um pobre coitado que dependo da sua capacidade e da sua predisposição de rir das minhas palhaçadas.”

“Você está enganado”, ela sorriu, sem saber como contra-argumentar. “E por que você acha que simplesmente estar no trapézio me faria feliz?”

Ele não respondeu, mas não conseguir conceber que a trapezista, com seus olhos brilhantes e seu corpo voador, não pudesse ser feliz.

Dias depois montaram o circo na cidade de Formosa. Enquanto todos adormeciam, o palhaço, insone, vestindo uma calça jeans e uma camiseta marrom, caminhava pela arena do circo, cogitando sua própria predisposição em rir. Em seguida, notou a trapezista lá no alto, prestes a decolar num voo abandonado. Ele sentou-se atrás de uma coluna, próximo às arquibancadas e ficou por um tempo assistindo aquela performance solitária, enquanto ela desenhava no ar círculos livres e imprecisos. Foi quando o palhaço então percebeu que, não fosse por sua presença ali, a trapezista poderia apenas existir, sem precisar interagir com outra pessoa. Levantou-se e foi embora, deixando-a sozinha com uma sensação indefinível, que, talvez, fosse felicidade.

(escrito para o clube da leitura do dia 13/03/2012)