quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fim

Fugi para Yucatán porque andava pensando no fim.
Se o meu fim coincidiria com o juízo final, com o fim do mundo, com o fim da sua vida ou da minha vida, com o fim desta história, com o fim das minhas lembranças, com o fim do sonho que tive esta noite ou, apenas, com o fim do dia de hoje. Tudo começou porque pensei que um dia tudo se acabaria.
O fim terá início quando, de repente, um planeta entrar em reta de colisão com a Terra e, nessa hora, vamos nos perder em cálculos intermináveis e nos agarrar a esta existência, vamos descobrir que fizemos muito e nunca nos demos conta do tamanho desse tanto, e perceber o quanto consideramos esse pequeno tanto que é apenas nosso. Quando o fim tiver início, desejaremos permanecer exatamente onde estamos, sem grandes mudanças, persistindo na entediante frustração dessa nossa rotina diária, num esforço final de sobrevivência e esperança.
Meu fim começou quando, depois de tantas previsões, me impediram de sonhar, e depois disso só me restou fugir. Às suas perguntas sobre os motivos da minha fuga, respondo apenas que eu queria voltar a ter meus sonhos desordenados e acabar com minha vigília intercalada com sonos profundos, antecipados e programados. Gentilmente, eu queria me permitir ver coisas que não existem, entrar em labirintos tortuosos, descobrir o que essas vozes tem a me dizer, enquanto tento manter minha clareza de espírito. Eu sei que na maioria das vezes me perco, e nessas horas, preciso de você. Sei que, para mim, é arriscado demais conhecer esses disfarces do meu inconsciente. Mas este é o risco que corro. Prometo compartilhar com você de novo os enigmas que me transtornam, pois sei que tais perturbações nos mantêm em contato. Eu queria algumas respostas, que não sejam prontas, nem fáceis, mas que nos entretenham até que venha o fim do mundo. Por isso, também, eu fugi. Mas me comunicarei com você, fique atenta. Vou escrever-lhe, contando meus novos sonhos e assim, quem sabe, possamos salvar ao menos uma parte do nosso mundo. Esta que ainda nos resta. Eu fugi, mas não fui embora. Porque, você sabe, são coisas diferentes. Fugi porque preciso da minha identidade de novo e só consigo resgatá-la por sonhos e devaneios. São meus sonhos que me salvam, não importa o que venha depois, se é o início ou o fim.
Se um dia tudo se acabar, que, ao menos, nós ainda tenhamos a capacidade de fechar os olhos e sonhar um pouco mais. E daí, começar a nossa história. 

(Escrito para o blog Caneta, Lente e Pincel, inspirado em imagem de Marcelo Damm, em 03/04/2012)