sexta-feira, 11 de maio de 2012

Tema de Frank

Quando a conheci, ela estava bebendo um Dry Martini e lendo um livro do Gregory Corso. Costumava aparecer às segundas, às vinte horas e trinta de cinco minutos. Pontual e exata como não costumava ser em sua vida. Sempre vestia preto e usava os cabelos presos num rabo de cavalo desalinhado. Sentava num banco junto ao balcão, pedia sua bebida e, calmamente, lia o jornal. Às vezes parava de ler e conversava um pouco com o barman. Depois, riam um pouco, ela pedia outro Dry Martini e olhava em volta. Um dia veio falar comigo, segurando firmemente seu copo meio cheio, meio vazio.

Eu estava pensando... - ela disse, indiferente como num filme francês - preciso esquecer algo que me aconteceu hoje, e estava aqui pensando que talvez você seja a companhia perfeita para isso.

Sentou-se à minha frente, respirou profundamente e bebeu dois goles de seu Dry Martini. Ela sabia. Eu já estava em suas mãos e mais cedo ou mais tarde teria que me abandonar. Sofria de um tédio incomum, anormal, sombrio.

O que aconteceu hoje que você quer esquecer?

Eu quero esquecer. Se você me perguntar, vou embora. Quero esquecer. Só preciso lembrar disso amanhã.

Lembrar de quê?

De que hoje consegui esquecer.

E o que eu posso fazer pra você esquecer?

***

No dia seguinte ela me acordou gritando. Gritou no meu ouvido, enlouquecida, como se estivesse cortando seu corpo com uma faca afiada, como se cortasse seu dedo indicador e o deixasse de lembrança para mim. Gritou durante minutos. Ou, pelo menos para mim pareciam eternos minutos, devastadores para os tímpanos e minhas relações com a vizinhança.

No meio de seus berros, ela gritava: “vamos grita comigo. Grita comigo, por favor. Grita agora.” E não sei como ou por que razão, aquilo foi uma ordem para mim. Gritei, de forma temerária, violenta. E num ímpeto, ela me calou, me dando um beijo fundo e repentino.

Agora escute o silêncio, ela disse. E me indagou com os olhos. Então?

Não estou ouvindo nada.

Nada?, ela disse.

Eu estou.

O quê?

O tema de Frank.

Que tema?

O seu tema.

***

Ela não tinha telefone, por isso eu precisava esperar suas ligações. Invariavelmente, elas vinham nos horários mais improváveis e, logo, o imprevisto passou a ser habitual. Eu esperava atender suas ligações no meio da noite, no meio da madrugada, às seis da manhã, quando eu conseguia dormir depois de tentar esquecê-la. Também ao meio-dia quando ela me perguntava onde eu estava e depois de ouvir que eu estava trabalhando, ela respondia com desprezo, ahnnn, é que quero ver você hoje à noite.

E eu aceitava, como aceitei tudo que vinha dela.

Preciso que hoje seja ontem de novo.

Como assim, garota?

Frank, preciso que hoje seja ontem de novo. Preciso disso agora, e preciso disso com você.

Tudo bem, vou pegar minha máquina do tempo.

Ela me apertou com força porque sabia ser violenta, me beijou de seu jeito próprio, quase gritante, e sussurrou:

Preciso que hoje seja ontem e preciso que você remova de mim essa vontade de ir embora daqui.

***

Durante alguns dias foi ontem, como ela queria. Foi um mesmo dia, repetidamente, dia após dia. Mas não consegui enganar o tempo e, assim, foi numa terça-feira de manhã que ela partiu. Na quarta, na quinta, na sexta, no sábado, no domingo, na segunda, na terça, na quarta, na quinta e em todos os dias seguintes fiquei esperando suas improváveis ligações. Dormi pouco, comi pouco, pensei pouco e só quis de volta as suas vontades enlouquecidas de gritar e de que todos os dias fossem um só novamente.

Um dia ouvi seus gritos. Procurei em dezenas de janelas iluminadas dos prédios à minha volta, calculando a direção daquele som. Gritei de volta, querendo que ela me escutasse. Depois, sobreveio o silêncio, sem sua boca violenta me beijando.

Invadindo o silêncio ouvi uma canção que dizia algo como: I promise when the sun comes up. I promise I’ll be true.

Não consegui mais dormir. Nem naquela noite, nem nas seguintes.

Esperando o sol nascer, esperando o dia de ontem de novo. Esperando por ela, que sempre foi o avesso do esquecimento.

Um comentário:

  1. Adorei "devastadores para os tímpanos e para minhas relações com a vizinhança" & otras cositas más! Agora: ela, e somente ela, que é borderline! Cruzes! ;)

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