terça-feira, 12 de junho de 2012

Engano

Chico é aquele sujeito que todo mundo gostaria de ter como amigo e que nunca aprendeu a ser pai. Em suma, ele:

1) escuta o que você fala, com calma, e ri quando você menos espera, tornando quase tudo muito simples, sem banalizar qualquer questão por mais boba que seja (você então se pergunta por que se preocupou tanto com isso);

2) tem pequenos defeitos como: inconstância;

3) tem grandes defeitos como: intolerância;

4) tem defeitos medianos como: mau-humor;

5) às vezes não atende o telefone nem retorna as ligações e manda algumas mensagens estranhas para o celular;

6) às vezes se arrepende de algo que disse;

7) quase nunca sabe o que deve fazer, como, por exemplo, como fazer para conhecer a filha de vinte anos que mora em Juiz de Fora.

A breve história começou no dia 14 de fevereiro, às 9h57min, quando, ele, vestindo uma calça de moletom cinza, atendeu ao telefone e ouviu a seguinte frase:

- É da casa do Senhor Francisco?

E ele ficou mudo porque quando ouviu sua voz soube exatamente quem era. Não foi por causa do tom formal, não foi por causa do leve tremor diagnosticado na exteriorização do seu nome, não foi por causa do sotaque mineiro reconhecido de imediato.

Foi por causa de uma cumplicidade estranha e misteriosa (facilmente identificável em pessoas apaixonadas, por exemplo).

Assim são as coisas da vida que não têm explicação, como a paixão e o medo. Simplesmente se sente e pronto. No caso dele, era medo o que sentia.

- Alô? - ela continuou, serenamente, por duas ou três vezes e depois desligou o telefone, fazendo com que ele se sentisse tão medíocre que sua vontade naquele instante era voltar pra cama e dormir.

Sentiu uma espécie de sono incontrolável que o impedia de pensar em qualquer outra coisa. Assim, em nada pensou durante cerca de vinte segundos. Depois, se perguntou por que fizera aquilo. Por que simplesmente não havia respondido, não havia perguntado quem era, não havia dito “sim, sou eu” e escutado o que ela tinha a dizer.

E esperou durante alguns minutos que o telefone tocasse novamente. Durante aquele dia, ele pensou nela o tempo inteiro, enquanto fazia pareceres, enviava e-mails, ou atendia números desconhecidos no celular – no fundo, querendo de verdade que fosse ela – e se decepcionando logo depois, ao descobrir que ora era o dentista, ora um cliente entediante, ora a companhia telefônica para lhe oferecer algum serviço indesejado.

E, por duas vezes, foi apenas engano. Duas vezes num mesmo dia, de modo que é necessário discorrer brevemente sobre o engano.

Equívoco originado da casualidade. Descuido. Intromissão involuntária e, às vezes, caótica na vida de outra pessoa. Entrecruzamento de vidas que absolutamente não possuem um elo de ligação em comum. Às vezes um único algarismo diferente num conjunto de oito que formam o número de telefone faz com que alguém fale com outra pessoa que jamais falaria em toda sua vida. Que jamais encontraria. É gênero da espécie acidente. Um minuto a mais ou a menos e duas pessoas se esbarram no supermercado, se olham, pedem desculpas e sorriem, observam rapidamente o carrinho de compras uma da outra, identificam gostos em comum, se encontram na fila novamente, descobrem que são vizinhos, marcam um encontro, namoram, brigam, tem filhos ou não, deixam de conhecer outras pessoas. Ou não. E então se separam. Ou não. Tudo na vida dessas pessoas passa a depender desse tênue fio que se cria entre elas. Outras vezes, é uma reunião de trabalho que se prolonga e faz com que ele (ou ela) fique cansado e não vá a uma festa mais à noite, onde conheceria outra pessoa, de modo que, realmente, não conhece essa pessoa que, por sua vez, fica meses saindo com alguém nada a ver. Às vezes, o que pode parecer, à primeira vista, um engano completo, se mostra, depois, uma das poucas coisas realmente críveis e completas da vida.

Coisas que, como algumas outras, fazem a vida de fato valer a pena.

E se equivalem a ouvir um disco da Nina Simone, ter um amigo em quem confiar ou ler Paul Auster. Ou ouvir a voz de uma filha desconhecida.

No fim do dia, atendeu ao telefone no quinto toque estridente do aparelho:

- É da casa do senhor Francisco?

- Sim, ele disse, cúmplice da mesma voz que ouvira naquela manhã.

Foram segundos permeados de um vazio perturbador em que ele esperou escutar apenas a palavra “pai”. Ouviu durante trinta segundos o que a voz tremida com sotaque mineiro falou e respondeu:

- Desculpe, deve ter sido algum engano, não sou o Francisco que você procura.

Um comentário:

  1. Inspiradíssimo conto! E muitíssimo simpático!!! Mas foi pra qual clube, o último?

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