quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os livros na estante


Os livros na estante já não tem mais tanta importância, a voz dele dizia na vitrola, e Alice discordava, titubeante, concentrada em si mesma, salvaguardando sua própria existência, obrigada a se manter de algum jeito compensada, razoável.
Por trinta segundos se faz um silêncio ensurdecedor e Alice pensa que será assim pra sempre. Sozinha, razoável, compensada, buscando qualquer acolhimento na sala repleta de objetos, inevitavelmente pensa em catalogar seus livros na estante, uma vontade interminável, resoluta.
Ou, diferentemente, sabe que isso é uma fuga. E foge de todas as sensações de perda de identidade, concretizando-se apenas em silêncio, silêncio e solidão.
Alice levanta e, em quarenta minutos, conta 735 livros em quatro estantes.

Cortázar

"As muitas maneiras de combater o nada, uma das melhores é tirar fotografias, atividade que deveria ensinar-se muito cedo às crianças, pois exige disciplina, educação estética, golpe de vista e dedos seguros. Não se trata de espreitar a mentira como qualquer repórter, e apanhar o estúpido perfil da grande personagem que sai do n.º 10 de Downing Street, mas, de qualquer modo, quando se anda com a câmara tem-se o dever de estar atento, de não perder esse brusco e delicioso reflexo de um raio de sol numa velha pedra, ou a corrida com as tranças ao vento de uma garota que volta com um pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo opera sempre com uma alteração da sua maneira pessoal de ver o mundo para outra que a câmara lhe impõe insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), mas não o desconfiava, sabedor de que lhe bastava sair sem a Contax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma nem 1/250. Agora mesmo (que palavra, agora que estúpida mentira!) podia ficar sentado no muro sobre o rio, vendo passar as barcaças negras e vermelhas, sem que me ocorresse pensar fotograficamente as cenas, deixando-me simplesmente ir no deixar-se ir das coisas, correndo imóvel com o tempo. E o vento já não soprava. (...)"

Julio Cortázar
No conto "As babas do diabo", em Armas secretas.