domingo, 10 de fevereiro de 2013

A indefinível e inesgotável tristeza do pequeno rei que precisava tomar decisões



Foi concebido unicamente para reinar. Durante anos recebeu a educação dos príncipes e exercitou a tomada de decisões, ainda que tal fardo não tivesse sido escolha sua. Acordava às seis horas para treinar o corpo, como o de um soldado. Aprendeu a falar seis idiomas de forma fluente, estudou as leis e as relações internacionais, dialogou com sábios e conselheiros, treinou a voz e a oratória, o corpo e o espírito. Dava ordens com a naturalidade do hábito enraizado. Nunca soube muito bem o que era um favor, uma necessidade, um descontrole das coisas. Desconfiava entender o que era precisar do outro, mas aquele sentimento era uma mera suposição, uma hipótese que descartava tão logo decidia continuar com seus afazeres. Cresceu seguro e, como todas as pessoas seguras, também solitário. Rodeado de dezenas de conselheiros, professores, empregados e súditos, ia, sozinho, aprendendo o que era ser rei.
Foi concebido e esperado para reinar e suceder. E como sucessor, jamais se permitiu fracassar. Seu primeiro e mais intenso desejo foi ser o melhor. Aprendeu a não admitir que uma derrota significava um fracasso. Uma derrota é um caminho para futuras vitórias, seus conselheiros lhe diziam, enquanto ele exercitava a resistência física e a perseverança do espírito. Tomava decisões diárias – importantes ou banais - com a confiança de uma criança. Acertava mesmo quando errava. O pequeno rei era jovem, persistente, seguro. E como todas as pessoas seguras, também era solitário.
Foi concebido e esperado para reinar, suceder e governar. Os amigos eram escolhidos pela relevância social, os livros pela utilidade moral e os professores pela eficiência do ensino. Em pouco tempo se casaria e aumentaria a população sob o seu governo. Aprendeu a controlar, dominar, determinar, resolver e decidir. Foi educado não para amar, mas para ser amado. O amor era, no máximo, a compaixão que sentia por alguém que se deixava abater pela fraqueza.
Um dia percebeu que estava triste e nunca havia pensado sobre a tristeza com tamanha clareza e intensidade. Jamais havia sequer pensado sobre a tristeza. Quanto mais refletia, mais esta sensação lhe parecia vaga, indefinida, fluida, fugidia. Parecia-lhe tão escorregadia que sequer sabia se seria correto denominá-la tristeza. Não tinha forças para falar, compartilhar, ou mesmo confidenciar, de modo que ninguém além dele próprio sabia que seus pensamentos vagueavam o tempo inteiro em torno da noção de tristeza. Tampouco determinou a si mesmo que esquecesse aquele sentimento. Ficou ali esquadrinhando cada ângulo obtuso, cada esquina obscura, cada fenda em que pudesse vislumbrar um possível entendimento. Mas quanto mais pensava, menos conseguia entender. Quanto menos entendia, mais sofria. Quanto mais pensava, mais sofria. Primeiro, o pequeno rei deixou de fazer exercícios físicos, em seguida, calou-se. A realidade lhe interessava tão pouco que passou a andar distraído, a tropeçar em degraus, a cair nos jardins do palácio. Uma vez caiu e se deixou prostrar enquanto o sol tostava sua pele pálida. Todos à sua volta se preocuparam. Médicos, conselheiros, empregados, todos opinavam, ofereciam-lhe apoio, sufocavam-no com perguntas simples que não mais favoreciam respostas fáceis. O espanto era comovente. Como alguém nascido e educado para reinar podia, repentinamente, tornar-se tão prostrado e indefeso? Os amigos pensavam que havia uma conspiração inimiga. Os inimigos pensavam em um golpe idealizado pelos que o cercavam. O pequeno rei pensava se aquela tristeza toda um dia se esgotaria ou se o conduziria para qualquer outra dimensão em que as sensações fossem diversas, em que não sentisse seu corpo rastejando dia após dia numa existência cansativa e questionável. O pequeno rei quando não estava pensando, estava sonhando, concentrado na imensidão indeterminada do sentimento da tristeza. De repente, em uma dessas quedas ao chão, ele não mais levantou, e ninguém mais o viu. Foi neste dia, que, pela primeira vez, chorou. Aos poucos, foi misturando-se aos gravetos quebradiços do outono e amalgamou-se na vegetação rastejante do palácio. Dos seus olhos escorriam lágrimas, enquanto seu corpo ia se transformando em folhas verdes, marrons, amareladas, de todos os tons e cores. Não parou de chorar. Não chorava de dor. Chorava por redenção. Antes de confundir-se completamente no chão de terra, balbuciou suas últimas palavras de rei. Ninguém escutou.
Desde então, neste ponto do jardim do palácio, por mais quente que a temperatura esteja, por menos chuva que caia, a terra decidiu estar sempre molhada. Salgada. Lacrimejante.

Conto escrito para o blog do CLP, inspirado em imagem de Pacha Urbano.

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