sábado, 19 de outubro de 2013

Encontro


Nos perdemos uma da outra na feira, num domingo que transpirava modorra de outono. Este dia cheirava a sementes de erva-doce misturadas a suor do dia de ontem. Eu tinha dez anos no meu passado, barracas de laranjas e limões ao meu lado, vozes dissonantes ao meu redor e absolutamente nenhuma ideia de onde minha mãe estaria.

Nos perdemos uma da outra, num dia de outono, fedorento e doce, sem hora precisa, junto com qualquer noção de tempo e de distância. Ela tinha vinte anos de existência à minha frente, barracas de batatas e berinjelas ao seu lado, gritos desnorteantes ao seu redor, e absolutamente nenhuma ideia de como, de repente, apareci no mundo.

Nos perdemos uma da outra no meio de centenas de pessoas preocupadas apenas com suas próprias vidas, seus próprios afazeres, seus horários, suas comidas, seus filhos, seus netos, suas dores abstraídas e seus amores insinceros. Era um dia de outono, como outro qualquer, e, exceto pelo inédito de minha breve liberdade misturada à agonia de me achar abandonada, eu estava firmemente concentrada no que se passava em mim.

Nos perdemos uma da outra num dia de outono inesquecível, no meio do labor de fim de semana, de comidas frescas, de escolhas rotineiras, de histórias paralelas, de conversas banais, de ofertas baratas. Nos perdemos uma da outra entre uma pechincha e um “muito obrigado”.

Nos perdemos uma da outra num dia completamente esquecível, exceto pela morte, nascimento ou casamento de alguém, ou, ainda, qualquer outra forma de alteração de existência, prevista, imaginada ou inventada. Mas lembro que acordei nesse domingo de outono, entediante e inusitado, com a sensação obscura de um iminente esquecimento.

E no exato instante em que acordei, retive em minha memória o sonho que eu tivera na noite anterior. Sonhei que bebia um copo de leite interminável e de paladar insuportável, nitidamente obrigada por alguém. Como num filme o plano ia abrindo e eu me via sozinha, sentindo-me obrigada a beber, sem chegar ao fim, e sem, no entanto, ninguém me constrangendo a fazê-lo.

Nos perdemos uma da outra enquanto eu, intrigada, lembrava desse sonho e pensava em contar pra minha mãe.

De repente, assim como cheguei ao mundo, senti um puxão no braço direito. Ela, pálida e silenciosa, com os olhos espantados e tensos, murmurou, com a voz suplicante:

_ Nunca mais se perca de mim.

Nos perdemos uma da outra para, num dia de outono que transpirava súplicas e dúvidas, nos encontrarmos pela primeira vez.



(inspirado em imagem de Paulo Resende, para o blog Caneta, Lente e Pincel)

Um comentário:

  1. Lindo e sensível texto que emociona e faz repensar o verdadeiro sentido da amizade. Amei! Parabéns, Danielle.

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