sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Reciclagem

No fim do dia costumava resgatar restos das vidas que se pensavam já bastadas, vividas até o fim. Recolhia latas de alumínio e seus lacres, papeis em branco, potes de vidro, roupas usadas, pedaços de coisas que um dia foram. Depois vendia o que resgatou e tudo novamente voltava a existir. Talvez em uma forma diferente, talvez com uma finalidade diversa, mas com a mesma substância, a mesma essência. Dentre embalagens vazias, contas de luz antigas, propagandas de banco, de políticos, de academias, de locadoras, às vezes encontrava uma boneca quebrada, sem braço ou sem perna. Chegava a pensar em levar pra casa, na esperança de que talvez sua mulher pudesse reformá-la. Dentre restos de comida, papeis sujos, extratos de banco, espelhos quebrados, às vezes encontrava uma bijuteria qualquer, um anel ou um colar. Cogitava levar consigo e dizer que encontrou na rua, na esperança de que sua mulher pudesse querer, ou rejeitar por ser quase lixo. Mas nesta noite, encontrou apenas uma carta de amor, rasgada em pedaços, dentro de um livro. Quando chegou em casa, colou os dez pedaços da carta, montando o pequeno quebra-cabeça afetivo, que se pensava destruído. Sentou-se na cama e leu, em voz alta e titubeante, as palavras rabiscadas em caneta azul. Nesta noite velou o sono absorto de sua mulher, já apropriado daquelas palavras de amor, lendo e relendo a carta, durante todas as horas até o amanhecer.


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